Neste final de semana, foi lançado nos cinemas o filme: “AMARRAÇÃO DO AMOR”.

O filme conta a história de Lucas (Bruno Suzano) e Bebel (Samya Pascotto). Apaixonados, os dois decidem oficializar a união. Mas, mal sabem eles que a religião vai ser um ponto de discórdia entre suas respectivas famílias. Enquanto o pai da noiva, Samuel (Ary França), luta para fortalecer as tradições judaicas dentro de casa; Regina (Cacau Protásio), mãe de Lucas, se esforça para que seu filho leve para sua futura família as tradições da umbanda.

Conversamos com a associada, roteirista e diretora do filme Caroline Fioratti e com os roteiristas Carolina Castro e Marcelo Andrade. Confira:

Ana Rodrigues

– Como nasceu a ideia do filme?

Castro: A ideia inicial, como muitos projetos, teve uma longa trajetória até a sua “encarnação” final! Sempre tive vontade de falar sobre esse assunto, sim, delicado, porém importante, e numa abordagem leve e divertida, e não estereotipada e dramática como religiões geralmente são retratadas. Assim, cerca de 8 anos atrás, surgiu a ideia de fazer uma série sobre uma família que vivia e trabalhava num centro de Umbanda, no estilo de uma série como “A Sete Palmos”. O tempo foi passando, e primeiro sentimos que a trama era mais apropriada para um longa, depois veio a idéia de dar leveza e surgiu a comédia, e o resto é história!

Andrade: A Carolina Castro teve uma ideia de uma série que passava em um terreiro de Umbanda. Foi assim que eu entrei no projeto. Ela precisava de alguém que conhecesse a religião. Então eu sempre brinco que foi Seu Zé Pelintra que me arrumou esse primeiro contato. A série acabou não andando, mas a gente teve a sensação que tinha muita história para contar ali. Primeiro, eu e Carol Castro começamos a pensar no roteiro. Com a entrada da Fioratti a gente foi encontrando melhor o gênero, as camadas dos personagens.

Ana Rodrigues

– Como o tema do filme trata de um assunto delicado como o conflito religioso, vocês tiveram alguma consultoria nesse sentido para fugir dos esteriótipos?

Castro: Tivemos consultoria para as duas religiões representadas no filme – Mãe Nancy d’Oyá e Michel Gherman – e visitamos várias vezes os locais representados no filme. Foi imprescindível, já que foi com a ajuda deles que conseguimos representar ambas as religiões de forma realista, respeitosa, e com bastante humor!

Fioratti: Sempre houve muito preocupação da parte dos roteiristas, direção e produção de representar a fé com respeito e atingir o humor a partir da identificação do público com as situações apresentadas. Não estamos rindo dos personagens, mas rindo do reflexo que eles são de nós mesmos… das nossas teimosias, diferenças, atitudes. A consultoria da Mãe Nancy d’Oyá e do Michel Gherman foram essenciais para retratarmos a umbanda e o judaísmo com verossimilhança e leveza. Com eles encontramos o que há de mais bonito e poético em cada religião e o que há também de cômico na interação dos seres humanos que as conduzem. Foi um processo muito rico de descobertas.

Andrade: Sim. Embora várias pessoas envolvidas no projeto tivessem vivência em alguma das religiões abordadas (algumas até nas duas religiões), é muito importante ter alguém que esteja com olhar voltado totalmente para isso. A gente teve a Mãe Nancy d’Oyá e o Michel Gherman. O objetivo sempre foi contar uma história que atravessasse esse dois universos de um jeito respeitoso, leve, divertido.

– Durante o desenvolvimento, o projeto participou de algum laboratório de roteiro? Se sim, nos conte como foi a experiência de amadurecimento da trama? 

Castro: Não

Fioratti: O filme sempre teve objetivos comerciais então o desenvolvimento não focou em laboratórios.

– Como diretora, como foi o processo criativo no set de filmagem e as contribuições da equipe / elenco? 

Fioratti: Sou uma diretora que valoriza muito a troca com a equipe e elenco, sempre mantendo em vista a unidade geral. Acredito que a escuta é muito importante e escalar um time que permita essa troca é o maior acerto do diretor. Trabalhei com um grupo de atores muito diverso e numeroso. Cacau Protásio que é hoje um ícone da comédia brasileira, Ary França um experiente ator dos palcos, Samya Pascotto e Bruno Suzano, dois jovens muito talentosos entre vários outros que contribuíram com seus olhares, questionamentos e experiências. Que delícia era colocar o texto e a situação na mão desses atores, na sala de ensaio, e ir descobrindo o jogo, a química, direcionando a improvisação em cima do que já tínhamos construído de sólido. O fato de termos um elenco e equipe diversa em termos religiosos, contribuiu também para a construção de um discurso de respeito e tolerância. Vieram muitas contribuições e percepções de diferentes lugares de fala. O resultado é um longa divertido, familiar, no qual a gente se identifica com os personagens e se sente representado independente da fé.

– Qual é a carreira que você espera para o filme? Considerando que estamos na pandemia e a estreia se restringe a plataformas online?  

Castro: O filme deve estrear nos cinemas, mesmo nesse momento atípico que vivemos. Esperamos que o filme, e sua mensagem, alcance o maior número de pessoas possíveis e gere debates construtivos sobre as diferenças que na verdade são mesmo semelhanças!

Fioratti: “Amarração do Amor” é um filme que se propõe a falar de família e fé de forma leve, divertida e respeitosa. Acreditamos no potencial dele de comunicação. Antes da pandemia, fizemos testes de público e o filme foi muito bem recebido.  Esperamos então que ele encontre um meio de chegar ao espectador, seja quando as salas de cinema reabrirem, mas principalmente através dos streamings.

Andrade: A possibilidade de colocar o filme em plataformas digitais é muito legal. Porque pessoas de vários países podem assistir ao conteúdo. A gente tem a Umbanda, que é uma religião muito brasileira, e temos o judaísmo, uma das religiões mais antigas do mundo. Então acho que é um filme para ser assistido por muitas pessoas diferentes.

Ana Rodrigues

– Qual é a principal mensagem que você almeja que o filme alcance?

Castro: Respeito mútuo.

Fioratti: O desafio de fazer um filme que falasse de tolerância e convivência religiosa foi o que me motivou a participar do projeto. Vivemos momentos de polarização e de muita tensão com o diferente. Estamos vendo o conservadorismo disseminar ódio contra religiões afro-brasileiras. Mas ao mesmo tempo, vivemos uma resistência potente contra o racismo e contra discursos de ódio. O longa-metragem se propõe, através de uma narrativa sobre fé e amor, mostrar que a convivência religiosa é necessária e só tem a somar, seja na formação de uma grande família – como no filme – seja na evolução da nossa sociedade. Eu sou de uma família umbandista e carrego na minha vida os ensinamentos dessa religião agregadora. Iafa Britz, produtora do filme, é judia, cultiva a tradição, liturgia e ensinamentos de sua herança religiosa. Por mais diferentes que sejam as duas religiões, trazem muitas questões em comum. Focamos nessas duas religiões por questão de afinidade, porém o conceito de tolerância se expande para todas as outras. Acredito na fé como agregadora – os dogmas e as pessoas que segregam.

Andrade: Eu quero que a mensagem seja de respeito às diferenças. Mas sem uma perspectiva de monocultura que tenta explicar as coisas colocando tudo dentro da mesma gaveta. Pelo contrário. Padronizar, normatizar é a principal forma de opressão. Então, espero que o filme seja uma celebração ao fato de que não somos todos iguais. Graças a Deus, a Oxalá, a Javé, ou ao acaso.

Confira o trailer oficial do filme: https://www.youtube.com/watch?v=WADMd763ePw

Saiba mais sobre os criadores:

Caroline Fioratti é roteirista e diretora, formada em cinema pela FAAP, onde começou sua carreira, escrevendo e dirigindo curtas-metragens premiados. Iniciou no mercado como roteirista e logo começou a trabalhar também como diretora. Assinou a direção e roteiro do longa-metragem, Meus 15 Anos, produção da Paris Filmes, que foi uma das maiores bilheterias de 2017. Criou, roteirizou, dirigiu e coproduziu a minissérie infanto-juvenil A Grande Viagem (TV Brasil), indicada ao Internacional Emmy Awards – Kids 2018. Dirigiu as duas temporadas da série médica, Unidade Básica, para o Universal Channel, a segunda na qual assina a direção geral. Lança no ano de 2021 três novas obras audiovisuais: o longa-metragem de comédia sobre tolerância religiosa, Amarração do Amor, da Migdal Filmes (direção e roteiro), a série policial investigativa, Os Ausentes, para a TNT (direção geral); o seu terceiro longa-metragem, filme que marca seu retorno aos projetos autorais como roteirista, diretora e coprodutora. Atualmente dirige uma série para Netflix, Temporada de Verão, e dois filmes para a Amazon.

Carolina Castro, roteirista e produtora. Nos últimos 15 anos assinou a criação, roteiro e/ou produção de mais de 15 projetos de cinema e TV, com mais uma dúzia em diversas etapas de produção. É showrunner de “Matches”, criada com Marcelo Andrade, série que lançou em fevereiro de 2020 na Warner Channel, que se tornou a melhor estréia de série brasileira da história do canal e foi renovada para mais duas temporadas (em desenvolvimento). Alguns de seus trabalhos: escreveu as três, e foi redatora final de duas temporadas de “As Canalhas”, GNT. Escreveu “As Brasileiras”, Globo; “Prata da Casa”, Fox; entre outras. Para cinema, criou, escreveu e produziu os ainda inéditos “Amarração do Amor”, estrelado por Cacau Protásio, Ary França, e grande elenco e “Carlinhos & Carlão”, estrelado por Luis Lobianco. Assinou também “Linda de Morrer” (2015), com Glória Pires, de Cris D’Amato; “Duas de Mim” (2017), com Talita Carauta, de Cininha de Paula; e adaptou o fenômeno internacional “High School Musical” para sua versão Brasileira.

Marcelo Andrade é criador e roteirista da série Matches (Warner Channel/Migdal Filmes). É roteirista dos longas Meus 15 Anos (Paris Filmes), Amarração do Amor (Migdal/Downtown/Paris) Pai em dobro (Netflix/Fábrica). Escreveu os roteiros do projeto Música de Elevador, do Estúdio Radiográficos e foi colaborador de roteiro do longa Malu de Bicicleta.

 

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