Na última semana, a AR esteve reunida com representantes da ANCINE para debater algumas questões relativas aos editais publicados pela agência. Confira a íntegra da carta que contém todas as sugestões.


Rio de Janeiro, 3 de novembro de 2015

À Paulo Alcoforado

Ancine

 

Caro Paulo, 

Antes de mais nada, gostaríamos de agradecer sua disponibilidade em receber a AR na reunião de 29/10/2015 e parabenizá-lo pelo trabalho que tem feito através da Ancine em prol do audiovisual brasileiro. 

Conforme combinado na referida reunião, encaminhamos os problemas discutidos durante a mesma, esperando que nossas sugestões contribuam para tornar o trabalho da Ancine cada vez mais produtivo e transparente. 

 

  1. Critérios de Avaliação e Seleção

1.1  Sobre a Comissão de Seleção, sugerimos que seja composta por profissionais que tenham atuação direta com a área avaliada. Por exemplo, projetos de séries para TV deveriam ser analisados por profissionais que tenham comprovadamente experiência nessa área;

1.2  Ainda sobre a Comissão de Seleção, identificamos como um problema o fato de as notas recebidas não serem válidas para a escolha final da Comissão, uma fase na qual não se admitem recursos e na qual não há, segundo o edital, critérios claros de seleção. No entanto, na ata do resultado final, aparece uma lista de fatores que os jurados levaram em conta para contemplar ou não as propostas, fatores que não estavam especificados inicialmente no edital. Sugerimos que os critérios da Comissão de Seleção sejam tornados públicos anteriormente à seleção;

1.3  A despeito da divulgação das notas, uma vez que a escolha é comparativa, sugerimos que seja publicada uma lista de propostas classificadas, ordenadas por nota;

1.4  Consideramos desejável tornar a seleção mais acessível a produtoras menores, uma vez que ainda temos como resultado a prevalência de grandes produtoras selecionadas no resultado final;

1.5  Cremos que a avaliação dos currículos dos profissionais deva seguir critérios objetivos e comparativos. Um dos maiores profissionais de roteiro da televisão brasileira, com mais de trinta anos de experiência e roteirista de obras emblemáticas da nossa dramaturgia, não alcançou nota máxima na avaliação. Considerando-se que não há no Brasil profissionais com currículo muito superior a este, levantou-se a dúvida sobre os critérios de avaliação;

1.6  O Edital apresenta termos de significado amplo sem elucidar com precisão o que se espera para a avaliação. “Concepção de linguagem audiovisual” é um exemplo disso.

 

  1. Pareceres e Recursos

2.1  Os recursos atualmente trazem apenas um “indeferido”, contra páginas de argumentação. Sugerimos que eles tenham seu deferimento ou indeferimento justificados;

2.2  Os pareceristas frequentemente indicaram a “falta de inovação” como uma característica negativa de projetos, embora essa diretriz não estivesse presente no Edital. Muitos projetos seguem a narrativa clássica, sem buscar inovação – que por sua vez é objeto específico de outro edital;

2.3  Também foi frequente a menção de que “a maioria das propostas não elabora um conceito técnico e de linguagem”, critérios genéricos que já foram apontados no item 1.6, o que poderia ser resolvido com um aclaramento acerca do conceito no Edital;

2.4  Alguns pareceres foram escritos com descaso ou sem a atenção devida, uma vez que pelo próprio texto do parecer se denota que o parecerista não compreendeu o conceito, chegando a confundir autor e obra em um dos casos. Esse problema é agravado pelo apresentado no item 2.1, a não justificação do resultado dos recursos;

2.5  Antes de que todos os recursos tivessem sido respondidos, divulgou-se a lista das propostas selecionadas. Isso levantou dúvidas sobre a efetiva análise e ponderação de todos os recursos.

 

  1. Fiscalização dos Recursos

3.1  Quem assina e quem efetivamente realiza os roteiros cujo desenvolvimento foi financiado? Isso objetiva evitar que produtoras ganhem o edital com roteiristas experientes e subcontrate roteiristas iniciantes para desenvolver na prática, o que tem acontecido com frequência. Sugerimos uma fiscalização sobre os processos de desenvolvimento. Há o temor de que, com a fiscalização por amostragem, essa prática nefasta se amplie;

3.2  Produtoras de fora do eixo Rio-SP disputam o Edital, beneficiando-se do indutor regional, com projetos de roteiristas cariocas e paulistas, não cumprindo a missão de desenvolver a cultura e o setor audiovisual dessas localidades.

Desde já nos colocamos à disposição para contribuir com o fortalecimento das políticas públicas para o Audiovisual e para debater questões concernentes à questão do Roteiro no Brasil.

 

Forte e cordial abraço,

Ricardo Hofstetter  – Presidente

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