Breve análise: La Heredera x Notables

Os autores mexicanos optaram por abrir sua história a partir de uma concepção de ação bastante divergente da nossa. A ação inicial de “La heredera” baseia-se na movimentação física dos atores e das câmeras e numa sofisticada (e dispendiosa) produção.

Em “Notables”, preferimos nos guiar pela via da ação dramática – a ação que decorre do conflito – que, no caso, desenvolve-se a partir do conflito principal de toda a trama (o amor da boa e ingênua Madalena pelo ambicioso e inescrupuloso Diego), que plantamos assim que a história inicia.

Uma maior aposta na interpretação dos atores e na direção da cena dramática também aparecem com clareza no início de “Notables”, baseada em ágeis e precisos cortes de câmera de um personagem para outro, o que requer do diretor experiência ainda rara no campo da teledramaturgia.

Ao optarmos pelo flash back na abertura de nossa história, sabíamos que o recurso poderia ser imediatamente rejeitado pelo público (afinal, não é comum abrir uma telenovela com cenas do passado, já que isso pode causar uma percepção de anacronismo da história).

Por isso mesmo, recorremos ao drama, ou melhor, à condensação do drama, que quisemos veloz e muito, muito melodramático porque nosso objetivo era “capturar” os telespectadores pelo sentimentalismo. Já em “La heredera”, é evidente a aposta na tecnologia, na produção e numa ação mais “hollywoodiana” e bem menos recheada com história.

Os autores mexicanos plantaram suspense e ação, enquanto nós preferimos criar interesse pela história e seus personagens, apresentando-os na medida em que aparecem em cena. Em “Notables”, na quinta fala da Cena 1 compreendemos que Madalena é pobre, foi expulsa de casa, que Diego é rico, duro de sentimentos e a abandonou.

A forma exagerada como plantamos a ingenuidade de Madalena e sua difícil situação (grávida de nove meses, expulsa de casa, abandonada pelo amado), assim como a rudeza de sentimentos de Diego visa buscar no telespectador a empatia necessária para que a trama “vingue” a partir do “interesse emotivo” que desperta. Em outras palavras, optamos pelo exagero para que nossa história desse certo desde o começo.

Quisemos capturar o telespectador pelo sentimentalismo e comoção, enquanto em “La heredera” é explícita a estratégia de conquista do público pela via da emoção gerada numa ação “adrenalínica” encenada por traficantes de armas e polícia.

Aranza, Salomón e Kauris são apresentados de acordo com as opções que fizeram na vida, ou seja, na relação direta de suas aproximações com o “bem” (a Lei) ou com o “mal” (o crime). No entanto, não foram planejados para despertar empatia imediata no telespectador, mas apenas para que ele (telespectador) saiba de quais universos a história trata e quem se situa em cada um deles, o que induz a uma opção pela moralidade e não pela sentimentalidade.

Haveria ainda outros aspectos a serem tratados nesta ligeira análise comparativa, mas ficaremos satisfeitos se o leitor puder compreender como “teoria” e “prática” se entrelaçam e se ajudam e, mais que isso, como se pode criar as mais diversas estratégias melodramáticas sem que necessariamente as telenovelas sejam escritas da mesma maneira ou sobre os mesmos temas.

Há, sem dúvida, parâmetros de universalidade que merecem ser observados, porém existe – e é isso o que mais nos importa – uma imensa gama de possibilidades de criação (e produção), capaz de gerar muitas e muitas histórias latino-americanas fazendo uso da engenhosidade permitida pelo melodrama. Até porque, o prazer do autor está em buscar pluralidade, inovação e atualização na teledramaturgia, mesmo que sob o comando de uma indústria cultural nada sentimentalista.

Telenovela de Bráulio Pedroso, trata da ascensão social de um charmoso rapaz de classe-média baixa.

Como Pantanal (1990), Renascer (1993), O rei do gado (1996), cujas maiores inovações estão nas lentes dos diretores e numa maior lentidão das tramas.

Vide as telenovelas Que rei sou eu? (1989), O Salvador da Pátria (1989)Tieta (1989), O bem amado (1973), Força de um desejo (2005), entre outras.

Cenas Externas são aquelas gravadas em ambientes abertos, geralmente ruas, estradas, jardins, etc. Muitas vezes as cenas externas são gravadas em locações, ou seja, em lugares não cenográficos, muito embora possam também ser concebidas como cenários. Stock Shots compõem-se de várias tomadas de um ou mais ambientes. Geralmente fazem uso de sucessivos enquadramentos de ambientes externos e são basicamente usados para produzir “alívio” entre cenas e/ou para anunciar a entrada de uma trama ou subtrama diferente da anterior ao Stock Shot.

Para fins deste trabalho, adaptamos espaçamentos e lay out das páginas de ambos os originais, muito embora os textos tenham sido mantidos em sua íntegra.

DEIXE UMA RESPOSTA