A Telenovela Latino x Brasileira

Mesmo mantendo-se fiéis à estrutura “clássica” do melodrama, apresentam uma certa rebeldia estética e moral frente a um didatismo formalista imposto em outros países latino-americanos, organizando-se em torno de um jogo que mescla informação, regras de comportamento e entretenimento e se acomoda numa só embalagem: o glamour. Sem dúvida glamorosas, as telenovelas brasileiras buscam diálogos ágeis, enquadramentos inovadores, ambiências que levam a redescobrir o país e a conhecer outros países – a “moda” das gravações em locações de cidades estrangeiras parece ter chegado “para ficar” -, mesmo quando elegem as duas capitais mais (e quase sempre) exploradas na teledramaturgia brasileira: Rio de Janeiro e São Paulo.

A crônica cotidiana, as manchetes de jornais, as questões polêmicas, as notícias da política, as descobertas da ciência, a moda, as atualidades, enfim, são “material vivo” que alimenta os roteiros de capítulos escritos por autores absolutamente obcecados e pressionados por seus patrões em torno de índices de audiência.

Impossível, no Brasil, escrever mais do que os primeiros 30 capítulos iniciais de uma telenovela. A partir do trigésimo episódio (senão antes), entram em jogo variáveis que impedem até mesmo seus autores de predizer com exatidão os rumos de suas tramas. Obviamente não estamos nos referindo a uma falta de controle na elaboração de uma telenovela brasileira.

Ao contrário, as instâncias decisórias que determinam sua produção sofisticam-se continuamente. Estudos de mercado, pesquisas sobre hábitos e tendências culturais, formação de group discutions, entre outras estratégias de marketing amparam decisões sobre temas, autores, diretores, atores e equipes técnicas e artísticas constituídas com antecedência cada vez maior.

É nesse balão de ensaios construído com pesados investimentos financeiros que mergulha o autor. Mas não se engane o leitor acerca do controle que autores têm sobre suas obras. O criador de um sucesso de audiência tem absoluto domínio sobre seus personagens e sobre a arquitetura dramática do início ao fim dos pelo menos 180 capítulos de sua obra.

Mas o quê, afinal, nos diferencia? O idioma? As escolhas temáticas? A irreverência? O tom da voz? A postura do corpo? A tecnologia? O texto? A direção? Ou tudo isso y otras cositas más? Se não é possível responder com precisão a essas perguntas, pode-se, ao menos, arriscar algumas hipóteses.

Para isso, faremos uma pequena análise comparativa entre a abertura de duas telenovelas: “La heredera”, escrita a quatro mãos por Luna, Monsell, Óbon e Patiño e produzida pela TV Azteca (México), em 2005; e “Notables”, projeto de telenovela por nós escrito em parceira com Alexsandro Oliveira para a mesma TV Azteca, no período em que lançou um concurso latino-americano de telenovelas, lançado em fevereiro de 2005.

Aos concorrentes cabia apresentar uma sinopse com no máximo 10 páginas, os perfis dos personagens, a relação de cenários, a macro estrutura dos 120 capítulos previstos para a obra e os roteiros dos 10 primeiros capítulos (tendo, cada um, cerca de 40 páginas). Um empreendimento e tanto, especialmente considerando-se que todo o material deveria ser escrito em espanhol e dentro do formato adotado pela emissora, aliás bastante diferente do nosso.

Como roteiristas, procuramos cumprir o exigido no edital, mas não pudemos deixar de imprimir à obra que criamos um “estilo” presente no Brasil. Por mais próximos que tenhamos chegado do formato dos capítulos, da linguagem e da estética usual nas telenovelas da TV Azteca – o primeiro capítulo e a sinopse de “La heredera” foram anexados ao edital para servirem de modelo -, acabamos “escorregando” em alguns “vícios de brasileiro”, como veremos agora.

Interessa mais em nossa análise comparativa, não a forma como as duas obras se aproximam dos cânones melodramáticos, mas as diferentes maneiras pelas quais os autores deles fazem uso. Além disso, queremos ressaltar distinções entre “estilos” e estratégias narrativas nas duas telenovelas.

Em “La heredera”, o primeiro capítulo conta com 169 falas de personagens e 93 cenas, sendo 28 externas e um stock shot 4. Já para a “Notables”, criamos no primeiro capítulo 343 falas de personagens e um total de 42 cenas, sendo 8 externas e dois stock shots.

Considerando que em telenovelas a ação dramática decorre basicamente da fala, dos diálogos, a primeira conclusão que tiramos é a de que contamos muito mais história no primeiro capítulo do que nossos colegas mexicanos. Além disso, estamos habituados a apostar nos atores, o nos leva a escrever diálogos mais ritmados e densos, como ilustram as cenas iniciais de “La heredera” e da “Notables”5:

DEIXE UMA RESPOSTA