A Soap Opera e suas influências

A soap-opera influencia a radionovela latino-americana, herdeira do melodrama e do folhetim. Nascida em Cuba por volta da primeira metade dos anos de 1930, onde já havia se consolidado um sistema radiofônico comercial sob forte influência da tecnologia e da cultura norte-americanas, as radionovelas também contaram, inicialmente, com o patrocínio de fábricas de sabão.

O desenvolvimento das radionovelas cubanas faz de Havana um pólo de produção exportador de artistas e livretos melodramáticos para a América Latina. No Brasil, as primeiras radionovelas – “A predestinada” e “Em busca da felicidade” –, veiculadas em 1941, são produtos adaptados de originais cubanos, tendo a dona-de-casa como público alvo.

Entre 1943 e 1945, foram transmitidas 116 radionovelas pela Rádio Nacional, montando um total de 2.985 capítulos. No início importadas, passam depois a ser escritas por autores nacionais, que posteriormente transferem seu conhecimento sobre o gênero para a televisão, inaugurada no Brasil no início dos anos 50. Começa, então, a história da telenovela brasileira (Ortriz, Borelli e Ramos, 1988).

As primeiras telenovelas aqui veiculadas não eram exibidas diariamente, o que só viria a ocorrer em 1963, quando vai ao ar “2-54 99, ocupado”, de Dulce Santucci, adaptada de original argentino. Na televisão, ao contrário do que aconteceu com o rádio, a ficção seriada nasce menos descompromissada com a venda de espaço comercial, já que o veículo restringia-se, à época, a pequeníssima parcela da população.

Talvez por isso, a telenovela brasileira tenha recebido menos pressão em relação à sua vendagem, abrindo espaço para uma maior experimentação. Técnicos e artistas puderam buscar alguma coisa diferente do que o mero “televisionamento” da radionovela, arriscando entonações menos exageradas e diálogos mais naturalistas do que os comuns às locuções de rádio.

Apesar disso, os artistas de ambos os veículos eram os mesmos, fazendo com que tal “interseção” resultasse num divórcio entre boa locução e inadequada postura de corpo, agravada, ainda, pela dificuldade de decorar os textos (uma vez que a locução radiofônica pode ser lida) e pela exigência de atuarem em ambos os veículos concomitantemente.

Versatilidade nem sempre alcançada. Sob forte influência do melodrama, do folhetim e da radionovela cubana, a telenovela brasileira nasce como um produto esteticamente híbrido. A partir de 1954, o “dramalhão” latino passa a ceder lugar às adaptações de escritores estrangeiros, como Victor Hugo, Rafael Sabatini, Júlio Verne, Bernard Shaw, Stephan Zweig, entre outros, em busca de novos tons para as narrativas.

A essa herança, agrega-se, ainda, a estética e o “maneirismo” do cinema hollywoodiano da década de 50, que serviu como parâmetro para o estabelecimento de uma linguagem romântica “adocicada” e de técnicas de enquadramento correntemente copiadas por profissionais da nossa teledramaturgia, não especializados e sem acesso às modernas tecnologias.

O texto, constituído por diálogos e prioritário em relação à imagem, visava o meio termo entre o melodrama e a “boa” literatura estrangeira e era recheado com rubricas técnicas que procuravam garantir a gravação ao vivo em precárias condições de produção, o que, por sua vez, desfavorecia a construção de uma estética realista-naturalista.

As adaptações de histórias que se passavam em longínquos lugares pouco ou nada conhecidos pelo público telespectador brasileiro eram mais eficazes do que tentativas de copiar a realidade.

Soma-se ainda, a tudo isso, a cultura nacional da desvalorização do entretenimento popular frente a uma suposta cultura erudita, estando ao lado desta última o teatro de vanguarda televisionado, que na década de 50 alcançou grande prestígio junto ao público cult que podia adquirir o moderno eletrodoméstico.

Somente com a inauguração da TV Excelsior, em 1959, começa a especialização das funções na produção da teledramaturgia brasileira. A programação é organizada de modo a obedecer a horários previamente estabelecidos, buscando criar fidelidade do telespectador à grade de programação da emissora.

Surge uma nova forma de se relacionar com o mercado artístico, passando a vigir o contrato de exclusividade em lugar do antigo “acordo de cavalheiros”, que obrigava técnicos e artistas a trabalharem em várias empresas ao mesmo tempo. É no Brasil dos anos 60 que a televisão se populariza e a telenovela começa a ganhar audiência e a retratar de forma mais realista a nossa sociedade.

É o início da era da indústria cultural, que hoje tem na telenovela um de seus maiores produtos de audiência e exportação, plantada sobre a tradição textual do rádio e a cultura imagética do cinema. Especialmente entre 4 de novembro de 1968 e 30 de novembro de 1969, com a exibição de “Beto Rockefeller”1 , a telenovela brasileira passa a se ocupar da vida urbana nacional, adotando personagens brasileiros, estética realista-naturalista e temas ligados à nova ordem metropolitana que se instaurava no país (Ortiz, Borelli e Ramos, 1988).

Na sucessão de telenovelas, não paramos de (re)descobrir o Brasil. Aventuramo-nos no “mundo rural”, visto em sucessos de audiência mais recente 2, que passaram a incluir em suas tramas melodramáticas uma fotografia reveladora (senão ufanista) da exuberante natureza brasileira. Outras obras do folhetim eletrônico buscaram releituras históricas que falam de Brasil para brasileiros 3.

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