As histórias, geralmente, são escritas para interessar ao público. O gancho é um instrumento específico para prender a atenção e mantê-la suspensa por algum tempo.

Uma vez recebi uma encomenda de seis ganchos. Não me encomendaram uma história para os personagens de uma determinada trama, o importante era que eu apresentasse os seis ganchos. Aquilo me deixou intrigada, “como assim seis ganchos”?

Mas a encomenda serviu para que eu refletisse sobre o gancho, seus objetivos, sua aplicação e suas conseqüências numa história.
A primeira coisa que tive certeza era de que um gancho jamais poderia ser encomendado, pois ele faz parte da história assim como um pé ou um braço fazem parte de um corpo humano.

Ninguém encomenda uma mão para cozinhar e sim uma cozinheira. A mão é definida pelo DNA da cozinheira e não o oposto. Assim são os ganchos. Eles são definidos pelo dna da história. Um gancho forçado é uma aberração, uma prótese, uma roupa que não cai bem.

O gancho pode estar no meio da ação ou no final dela. O gancho no meio da ação aumenta o suspense. Exemplo: o assassino chega à casa da vítima, que está no chuveiro. O assassino entra no banheiro, abre a cortina e a ação pára no olhar apavorado da vítima. No bloco seguinte, o assassino mata a vítima (ou então outro personagem da história aparece e salva a pobre criatura).

O gancho no final da ação é usado quando a conseqüência é mais importante que a ação em si. Exemplo: o assassino chega, entra no banheiro e mata a vítima. E só então cortamos. Neste caso a morte não é tão importante quanto suas conseqüências e é para saber as conseqüências que o público vai esperar.

O gancho que pára a ação no meio é muito usado em novelas. Talvez isso tenha uma relação com o público, mais fácil de manter em suspense.

O “GANCHO” EM TELEVISÃO (2)

O gancho no final da ação é mais usado em minisséries. O público, mais sofisticado, sabe o que vai acontecer e sente-se “enganado” tendo que esperar para ver o final daquele movimento. Ele já sabe que a mocinha vai morrer, ou até que vai aparecer alguém naquele momento para salvá-la. Esse público quer saber o que o autor vai apresentar como conseqüência do gancho.

Em ambos os casos, no bloco seguinte, a ação deve continuar segundo a lógica da história.

Existe uma prática muito comum em televisão que é o “falso” gancho. O falso gancho, geralmente, foge das conseqüências e faz a história voltar atrás, ao momento anterior ao gancho. O falso gancho é uma “volta” na história e no espectador. Um exemplo disso é um personagem que de repente desmaia, gratuitamente, sem isso estar relacionado à lógica da história, para voltar a si no bloco seguinte, apenas para criar uma situação grave.

O gancho, em televisão, está intimamente ligado aos intervalos comerciais. Essa relação pode ser “adequada” ou “predatória”.
A relação adequada entre gancho e objetivos comerciais se dá quando o gancho faz parte da história, está adequado ao momento em que ocorre e mantém o público ligado no programa, esperando o próximo bloco e, portanto, assistindo aos comerciais.

A relação pode ser predatória quando o gancho é falso, criado de fora para dentro da história, com o objetivo único de prender a atenção do espectador para que ele assista aos comerciais. Nesse caso o público pode sentir-se enganado e, se não tiver uma relação afetiva muito forte com o programa, vai mudar de canal.

Muitos roteiristas perdem horas procurando um gancho. Se um gancho não pode ser encontrado facilmente é porque a história está fraca. Uma boa história oferece ganchos deliciosos, prontos para serem pescados.