Na seção de avaliação de filmes de O Globo, “Mestre dos Mares – O Lado mais Distante do Mundo” (Master and Commander – the far side of de World), do diretor Peter Weir, o bonequinho aplaude sentado (a classificação máxima seria aplaudir de pé) e o comentário do crítico afirma: “É de uma competência a toda prova, mas fica um tiquinho abaixo das expectativas”.

Achei curioso que um filme em que se reconhece toda a competência possível fique, paradoxalmente, abaixo das expectativas. A quais “expectativas” estará se referindo o crítico? Não li o texto integral da crítica, o que não faz diferença para o que quero dizer.

Vou partir do princípio de que ele não está falando de fatos externos ao filme, como a publicidade que teve ou o montante da produção, porque seria uma pobreza conceitual. Vou considerar que ele se refere à história, ao argumento, ao roteiro, enfim – inclusive porque esta é minha praia.

Que “tiquinho” será este que falta ao roteiro, apesar da competência? Um antigo sofisma filosófico brincava com a seguinte premissa: você tem aquilo que não perdeu. E concluía: você não perdeu o rabo; logo, você tem rabo. O que é falso na premissa, claro, é que nem tudo que está fora de você foi perdido. Só se pode dizer que falta, a algum objeto, aquilo que lhe é próprio.

O que define cada ser são alguns elementos, dispostos num certo protótipo, num certo modelo. De um homem sem braço, não se diz que deixou de ser homem; será um homem sem braço, como o Almirante Nelson, maior herói da marinha inglesa. Para dizer propriamente que falta alguma coisa a um determinado ser há que dizer que falta, em relação ao modelo que se toma por referência.

Qual será o modelo em relação ao qual “Master and Commander”, apesar da sua excelência, deixa a desejar? A meu ver é “Moby Dick”. Falo antes do romance de Melville, na sua plenitude, que do filme de John Huston, em que a complexidade da narrativa é reduzida às dimensões comerciais de um filme.

O romance de Patrick O’Brian, em que se baseia “Master and Commander”, foi lançado em 1991; “Moby Dick”, em 1850. O’Brian situa sua história em 1805, algumas décadas antes da de Melville. No livro deste, acompanhamos a viagem de um navio baleeiro norte-americano; naquela, a de um navio de guerra inglês.

Apesar das diferenças, há uma série de pontos em comum entre as duas, revelando a inspiração de um no outro. O ponto mais importante, o que verdadeiramente aproxima as duas obras, é que ambas as viagens têm por objetivo a perseguição de um inimigo mortal. O Capitão Ahab, do Pequod, está disposto a sacrificar tudo, a ir até o fim do mundo para caçar a baleia branca, Moby Dick; “Lucky” Jack, o comandande do Surprise, com uma obstinação equivalente, persegue uma fragata francesa, com poder de fogo quase três vezes superior ao seu.

A meu ver, a grande diferença, responsável pelo “tiquinho abaixo das expectativas”, de que fala o crítico, é a dimensão do inimigo de cada um. Enquanto o Capitão Lucky Jack desafia o poder de Napoleão, Ahab desafia nada menos que o Cosmo: “ Ó tu, espírito do claro fogo, a quem eu, como persa, adorei em outros tempos… agora te conheço e sei que o melhor modo de adorar-te consiste em desafiar-te.

Nem o amor nem a reverência conquistarão tua generosidade e mesmo pelo ódio não podes senão matar…e matas a todos…. Reconheço o teu poder mudo e sem discernimento mas até o último alento da minha vida vacilante hei de disputar o teu domínio incondicional, não integral, sobre mim… ainda que lances à água frotas de mundos totalmente carregados, há aqui algo que ainda permanece indiferente. Ó tu, espírito claro, com o teu fogo me fizeste e, como verdadeiro filho do fogo, eu o exalo e to devolvo…”, diz o terrível Ahab.

Quando poderia o Capitão do Surprise pronunciar tais palavras, ainda que Napoleão tenha sido talvez o maior espalha-merda do século 19, o próprio anticristo, “o monstro corso que acabou com a tranqüilidade na Europa”, como dizia, neste mesmo ano de 1805, uma personagem de Tolstoi, na longínqua Rússia de “Guerra e Paz”, ou, para citar um exemplo fora da ficção, mas bem próximo a nós, o cara que, sem vir aqui, mudou o curso da história do Brasil, forçando a família real portuguesa a transferir-se para cá.

Também é interessante analisar a maneira como é tratada, nas duas obras, a referência bíblica óbvia em qualquer história de viagens marítimas: Jonas. No início de “Moby Dick”, ainda em New Bedford, um pregador faz um sermão tendo por tema a figura de Jonas, o homem que se mete num navio para fugir das ordens de Deus. “Mas o Senhor lançou sobre o mar um vendaval e houve no mar uma tão grande tempestade que o navio estava a ponto de naufragar.”(Jonas.1.4)..

Como último recurso, os marinheiros jogam a sorte para descobrir por culpa de quem acontecia aquilo. O resultado aponta Jonas e eles o atiram ao mar. O que significa que viajar com alguém marcado por Deus dá um tremendo azar.

Em “Master and Commander”, depois de sucessivas dificuldades e azares, os marinheiros concluem que um tímido suboficial é o causador, que é ele o Jonas do Surprise. Como não estão nos tempos bíblicos, ninguém se dispõe a jogá-lo no mar, mas o pressionam de tal forma – o clássico “assassinato cultural” – que ele próprio toma a iniciativa e se lança na água, resolvendo o conflito.

Mas no baleeiro Pequod, de “Moby Dick”, o problema era muito mais complicado. A certa altura, o piloto Starbuck diz a Ahab: “ – Deus está contra ti, velho. É uma viagem nefasta, mal começada, mal continuada. Deixa-me…aproveitar o vento favorável que nos levará de volta à pátria…” Ou seja, insinua que Ahab é o Jonas do Pequod. Ao que o Capitão responde: “- Todos os juramentos que fizestes de caçar a baleia branca vos ligam como o meu juramento me liga a mim. E o velho Ahab está preso de coração, alma, corpo, pulmões e vida.” Quer dizer, não havia saída. Quem se atreveria a jogar o próprio capitão do navio ao mar? O resultado será que todos morrerão, exceto um, Ismail, o narrador da história. Enquanto Lucky Jack alcança a glória contra a fragata francesa.

Há muitos outros aspectos interessantes a ressaltar nesta comparação, como o tratamento do homossexualismo dos marinheiros, que Melville coloca de maneira nem tão disfarçada e “Master and Commander”, apesar de realizado 150 anos depois, passa ao largo. Ou o alusivo personagem do jovem oficial, um menino, na verdade, a quem cortam o braço direito devido a um ferimento de batalha. E que se mostra de uma valentia a toda prova, combatendo, mesmo amputado, como se reencarnasse o Almirante Nelson (que também perdeu o braço direito na luta ), morto em batalha precisamente neste mesmo ano de 1805, em que se situa a ficção de O’Brian.

Concluindo, “Master and Commander”é um excelente filme. Ninguém pode lhe exigir – a ele e ao romance em que se baseia – que tenha uma dimensão cósmica, metafísica, exceto o próprio modelo em que se inspira e de onde extrai grande parte da sua força dramática. Seria uma empreitada maravilhosa se todos os recursos existentes, postos à disposição de “Master and Commander”, fossem empregados numa nova versão cinematográfica de “Moby Dick”, apesar da proteção de que hoje desfrutam as pobres baleias. Fica aí a sugestão para os produtores. Precisando de um roteirista, é só me chamar. (Se preferirem histórias nacionais no gênero, tenho várias idéias).

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