mazaropiApesar de todo o rigor da censura nos tempos do governo militar, havia um cineasta que denunciava as injustiças sociais e, não se sabe porquê, nenhum filme seu jamais foi podado pelos censores, ao contrário de Glauber Rocha e diversos outros cineastas brasileiros.

Para o enorme público brasileiro que não perdia um filme sequer, ele contou histórias que abordavam o racismo, divórcio (que a lei então proibia), as religiões, política e falou até mesmo dosproblemas da devastação da natureza.

Assuntos tão sérios, ele tratava de um jeito pouco comum: a comédia. E, como falava a língua do povo e de um jeito bem brasileiro, isto é, evitando o debate e o confronto com quem detém o poder. A elite, é claro, não o entendia muito bem. Então, apesar da aclamação pelo grande público, o reconhecimento de seu trabalho pela crítica e a elite intelectual, lhe foi praticamente negado.

Mazzaropi foi um artista brasileiríssimo. De origem humilde, começou no circo, foi para o rádio, passou pela TV e chegou ao cinema, onde estreou como ator até se tornar seu próprio produtor, diretor e distribuidor, consagrando-se como um dos maiores sucessos de bilheteria.

Conseguiu o que ainda hoje parece quase impossível: criar uma indústria de cinema genuinamente nacional, independente (sem subsídios ou financiamentos) e, além de tudo, bem sucedida. Certa vez, ao lhe perguntarem qual seria a razão de sua fama, ele respondeu: “O segredo do meu sucesso é falar a língua do meu povo”.

Mazzaropi não fazia filmes sobre o Brasil. Mazzaropi fazia filmes para o Brasil e dizia mais: “Não tenho nada contra esse tal de cinema novo, só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual.”

Ele nunca teve sócio, dizia ter o necessário para pensar em fazer amanhã ou depois a indústria cinematográfica: câmeras, holofotes, lâmpadas, cavalos, cenários, agências em São Paulo, Rio, Norte do país e uma fazenda de 184 alqueires no Vale do Paraíba – Taubaté – que servia perfeitamente de estúdio para os filmes que rodava.

Tudo o que ganhava era aplicado na Pam-Filmes, no cinema brasileiro. Fazia um filme por ano, levando cinco meses de preparação de roteiro, cenários, etc. Dois meses para filmar. O resto era problema de distribuição e fazia questão de dizer que tinha seu negócio, trabalhava a hora que queria sem dar satisfação a ninguém.

Felizmente, a obra de Mazzaropi vem sendo revista pelos críticos e as universidades começam a estudá-la, embora ainda seja espantosa a omissão do artista nos livros sobre cultura nacional. Mesmo assim, a memória de Mazzaropi continua virtualmente viva pelo país. Ela está latente na lembrança do público que continua vendo seus filmes. Fenômeno exclusivo a alguns poucos. Por estas e outras razões, existe um importante espaço para Mazzaropi na história do cinema brasileiro.

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