A primeira dificuldade é a própria vontade do telespectador de interagir. Como diz o crítico Arnaldo Jabor: “A interatividade é uma falsa liberdade, já que transgride o meu direito de nada querer. Eu não quero nada. Não quero comprar nada, não quero saber nada”.

O espectador de televisão está acostumado à passividade ou, quando muito, à interatividade intuitiva e quase zen possibilitada pelo controle remoto – uma ação que ajuda a inibir o pensamento e não a desenvolvê-lo. (“A Mídia Zen”, de Erzenberger, artigo no qual, na contramão da corrente, enfatiza a necessidade e o valor dessa atitude).

Uma tela padrão de Internet não avança sem o clique do usuário. Na televisão é quase o oposto. Como a recepção é coletiva (de um ponto para vários usuários, enquanto a Internet é de um ponto para um único usuário) o programa continua mesmo com o espectador interagindo.

O que acontece em televisão digital é que, ao interagir, o usuário abre uma janela ao lado da imagem principal, que possibilita um voto, uma compra ou o que o telespectador desejar. Mas em paralelo, o programa continua correndo.

Com o uso do setbox é possível criar possibilidades de gravar o programa no HD do setbox, de forma a permitir que o usuário o interrompa. Isso poderá funcionar no caso dos programas que não são ao vivo.

Mas há muitos programas de televisão cujo grande prazer é assistir ao vivo e, mesmo interagindo, o espectador não quer perder o frescor do ao vivo. O caso mais clássico é futebol, que ninguém quer ver gravado.

Mas também programas de auditório e de debates (como os programas sobre sexo, baseados em ligações com ouvintes, tem um frescor do ao vivo). Além disso, o mais importante, é que parar o programa para interagir pode romper boa parte do ritmo e do prazer construídos pelo criador do programa.

Por tudo isso, o ideal é criar soluções de interatividade simples e que permitam que o usuário interaja ao mesmo tempo em que assiste ao programa. Ou fazer como faz os programas de jogos (Banzai, Who want be milionare?) que incorporam no programa alguns segundos previstos especialmente para quem quer interagir, mas que são cuidadosamente calculados para não incomodar os inúmeros espectadores que, mesmo assistindo a um programa interativo, não querem interagir com ele.

Essa é outra característica dos programas interativos de televisão: eles devem dar ao usuário a possibilidade de não interagir. Alguns estudos de usabilidade da BBC mostraram que programas que obrigaram o espectador a interagir foram grandes fracassos.

O ideal é um programa que dê ao espectador o direito à passividade. Assim como o espectador assiste a um jogo de futebol, ele pode estar assistindo com prazer a outras pessoas jogarem um programa interativo.

Ao falar da interatividade ideal Johnson (“A Cultura da interface”) defende que a boa interatividade não é racional, é intuitiva e prazerosa. É quase como uma criança descobrindo o mundo.

A interatividade ideal em televisão deve ser assim, o que é quase o oposto da interatividade baseada em raciocínio e no modelo de pensamento que foi a base de construção da linguagem da Internet (em especial os estudos de Engelbart e de Vanevar Bush, o famoso “Como nós pensamos”).

Os programas de sucesso apostaram numa programação de TV interativa que mantém o apelo emocional da televisão para, a partir daí, incentivar os telespectadores a interagir com o conteúdo exibido.

Dificuldades da Interatividade em Televisão (2)

Outro problema será o das interfaces da televisão digital. O mouse permite uma interação mais diversificada do que o controle remoto. Mesmo o controle remoto aperfeiçoado apresenta dificuldades de usabilidade. O controle remoto utilizado no DVD e o controle remoto usado em operadoras de televisão por assinatura (como Sky e Directv) são modelos possíveis de controles para a futura televisão digital.

O tipo de interatividade do DVD, com alguns extras e uma navegação bastante restrita, é um modelo pensado para televisão digital.
Outras discussões serão sobre a divisão da interface da tela. Com certeza a técnica da simultaneidade será utilizada para criar a interface.

Como já dissemos o programa estará acontecendo e, em paralelo, teremos os ícones e links para possibilitar a interação. Onde vão estar esses ícones são alguns dos debates que ocorrem para criação da interface da televisão digital.

Na maioria dos programas interativos das televisões por assinatura atuais, a interatividade é uma opção extra do controle remoto, que só surge ao você apertar o botão i (de interatividade). Nesse momento a tela se divide (como se fosse uma imagem de DVD) entre o programa que continua sendo exibido numa imagem menor e um pedaço (geralmente à esquerda) para interatividade.

O interessante é observar que a opção pela interatividade não é “natural” à televisão, ela é uma intervenção que transforma tudo. Isso, obviamente está longe de ser o ideal.

Há possibilidades mais contemporâneas, ainda a serem investigadas, que permitem que o link esteja sobre a própria imagem, sem a necessidade de aparecer um outro cursor. No caso de narrativas, o link sobre a imagem é possível e pode contribuir na criação de narrativas orientadas por objetos.

Para terminar, uma diferença fundamental que tem a ver com os hábitos de uso de cada mídia. A recepção no computador é individual enquanto na televisão é coletiva ou, ao menos, pública. A recepção coletiva gera uma série de dificuldades para a interação. Isso se percebe até em famílias discutindo sobre o poder de deter o controle remoto e a decisão de qual canal assistir.

Quanto mais complicada a interatividade, mais complicada será essa decisão “coletiva”. No caso de narrativas, mesmo se você assistir televisão sozinho, a decisão sobre os caminhos da interação será sempre coletiva, pois o programa irá seguir de acordo com a votação da maioria.

Uma forma de narrativa com caminhos individuais tipicamente televisiva é exibir vários pontos de vista da mesma história em vários canais. A interatividade ocorre pela simples troca de canal (algo que pode ser feito até na televisão analógica) e cada telespectador verá trechos diferentes da história.

Esse caso, mesmo possível com a televisão analógica, só foi implantado em canais experimentais, como o programa D-Dag TV exibido pela televisão dinamarquesa. A experiência, mesmo interessante, corre o risco de romper com outro prazer comum a todas as narrativas: assistir algo e conversar com outro após o filme sobre o que você assistiu.

A televisão se notabilizou por ser a mídia que mais catalisa esse tipo de debate público e as narrativas individuais parecem não fazer sucesso por romperem com essa possibilidade.