Sobre o Prêmio

por Ricardo Hofstetter

Anos atrás, numa livraria, encontrei um livro interessantíssimo. Minha memória debilitada não me permite lembrar seu título, mas era algo na linha “As grandes falas do cinema”. A vontade de comprá-lo foi imediata, mas, ao folheá-lo, veio a decepção: cada “grande fala” vinha seguida do nome do personagem que a tinha dito (e, entre parênteses, o nome do ator que o interpretara) e o nome do filme. Nenhuma menção a quem de fato merecia o crédito, o sujeito que escrevera o roteiro do filme e, consequentemente, a fala. Como um Joe Gillis tupiniquim, me veio o espanto: será que ninguém sabe que é o roteirista que escreve aquelas falas?! Será que acham que os atores criam suas próprias falas nos filmes?! Claro, não comprei o livro, mas ele nunca mais saiu da minha cabeça.

Desde que assumi a presidência da AR – Associação de Roteiristas – em dezembro de 2013, ainda movido pela lembrança frustrante daquela noite na livraria, venho lutando para instituir um prêmio que valorize o mais importante e, paradoxalmente, mais desvalorizado elo da cadeia produtiva do audiovisual no Brasil: o roteiro e seu profissional, o roteirista. O grande empecilho sempre foi dinheiro. Nunca tínhamos, nunca conseguíamos, não somos produtores, não sabemos captar… E o sonho foi sempre adiado.

Por conta do processo de fusão da AR com a AC – Autores de Cinema – descobri que outros roteiristas também tinham o mesmo sonho: um prêmio exclusivo para roteiristas, organizado e julgado exclusivamente por roteiristas. E agora que a ABRA está instituída e em pleno funcionamento, juntamente com os outros sonhadores Thiago Dottori, Camila Agustini, Leo Garcia, Matheus Colen, Duda Almeida, Pedro Perazzo e Gustavo Colombo, decidimos inverter o processo: fazer o Prêmio, independente de dinheiro. E finalmente está acontecendo: saímos do sonho para a realidade. Hoje podemos dizer que o 1º Prêmio ABRA de Roteiro já existe!

Ainda é pequeno, tem poucas categorias, não há prêmio em dinheiro (até a cerimônia de premiação pode pintar!), mas aos poucos iremos crescendo, aperfeiçoando, melhorando, até que possamos ter um prêmio semelhante ao da WGA. Sonho louco, impossível? Sim. Mas faz parte do nosso ofício sonhar loucamente, impossivelmente.

Falando em loucuras e impossibilidades, fazer o levantamento das obras audiovisuais que estrearam em 2016 e que, portanto, concorreriam ao prêmio deste ano, foi uma delas. Uma tarefa difícil, complicada, árdua, mas depois de alguns meses correndo atrás das informações, conseguimos realizar um trabalho incrível, levantamento, acho, nunca antes feito. Foi também importante e gratificante descobrir a grande quantidade de filmes e séries lançadas comercialmente no mercado em 2016, o que já começa a permitir que roteiristas vivam de seu ofício.

Importante lembrar também que o Prêmio ABRA de Roteiro não surge apenas para premiar os melhores roteiros e roteiristas do ano anterior. Quem vai ganhar, quem vai perder é o de menos. O que importa é divulgar o trabalho do roteirista e fazer com que as pessoas entendam que, para que uma obra audiovisual chegue às mais variadas telas, alguém precisa sentar na frente do computador e, com muito talento, sangue, suor e lágrimas, criar e desenvolver aquela história, cada reviravolta, cada cena, cada fala de cada personagem, cada rubrica. E que este profissional é o roteirista. Misteriosamente, o mais esquecido quando se fala de obra audiovisual.

Com o Prêmio queremos também divulgar a ABRA e atrair mais roteiristas para que possamos nos transformar numa associação forte, representativa e capaz de, cada vez mais, defender nossos direitos e interesses no mercado audiovisual.

Como disse, é do nosso ofício sonhar loucamente. Então sonhemos que este 1º Prêmio ABRA de Roteiro tem o tamanho, formato, premiação e concorrentes que sempre sonhamos e que em breve ele terá a mesma importância que o prêmio da WGA tem para o mercado americano. Quem sabe esse sonho não vira realidade em breve?