*Artigo escrito pelo associado da ABRA Ismael machado (escritor, roteirista, jornalista)

‘Prova do líder do BBB’, ‘leilão’, ‘fila do INSS’. Essas foram algumas das expressões usadas para classificar o quase inclassificável ‘novo’ sistema de edital lançado pela Ancine, modalidade Fluxo Contínuo para produção de longa-metragem em cinema. O modelo atual, excludente por natureza, é mais um indicativo da prática política onde o setor audiovisual brasileiro se alinha a uma concepção neoliberal de ver, pensar e refletir a sociedade num país desigual e injusto. O modelo, baseado em um ranqueamento supostamente objetivo e neutro envolvendo produtoras, diretores e distribuidoras, afunilou a disputa por verbas públicas de uma forma que privilegia basicamente grandes produtoras, diretores de ‘blockbusters’ e distribuidoras com jeitão de multinacionais.

Era esperado. Ao assumir um Ministério da Cultura que havia sido implodido pelo presidente ilegítimo, Sérgio Sá Leitão trazia nas costas o ‘peso’ de ter atuado na presidência da Riofilme com um olhar direcionado apenas às produções que supostamente teriam melhor aceitação no mercado. Numa das primeiras entrevistas concedidas, ironizou públicos de alguns filmes afirmando que tinha mais seguidores e amigos nas redes sociais que a plateia de algumas produções em tela. Parecia esquecer que um dos gargalos eternos no cinema brasileiro passa historicamente pela questão de exibição. Sem uma política adequada para garantir a exibição de produções nacionais em território brasileiro, como ser competitivo?

SSL, como se referem outras pessoas sobre o ministro, não se incomodou com as críticas e observações. Aos poucos foi minando e isolando a diretora-presidente em exercício da Ancine Débora Ivanov. A ideia era colocar alguém plenamente afinado com essa visão única de mercado. Christian de Castro, considerado num site voltado a discussão do audiovisual no Youtube um ‘p…das Galáxias’, abraçou a causa com fervor. A ingerência do Ministério da Cultura passou a ser cada vez maior sobre uma Ancine que, bem ou mal, caminhava com as próprias pernas nas tomadas de decisão.

A dupla começou a discorrer sobre conceitos como eficiência, gestão, desburocratização, rapidez. Lembra, já que estamos falando de cinema, o personagem pai do filme argentino ‘O filho da noiva’ quando o filho interpretado por Ricardo Darin fala que a sociedade argentina está mais eficiente (referindo-se às medidas neoliberais do país) ao que o pai responde algo como ‘não foi por eficiência que lutei e sim por uma sociedade mais justa’. As falas de ambos soavam como as do ex-presidente Fernando Collor de Melo quando prometia um país ‘aberto’ ao moderno. E deu no que deu.

O primeiro sintoma de que o rumo tomado seria excludente e favorecedor de minorias elitizadas do audiovisual foi o completo descrédito dado aos roteiristas em editais. Se antes os projetos eram avaliados também por seu potencial criativo – e para isso, não há como negar a importância dos roteiristas, já que como explicitado no site do Tertúlia Narrativa: ‘era uma vez um roteiro. O resto é história’ – agora passariam os roteiristas a serem tratados como um apêndice. Em vão tem sido o posicionamento crítico da Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) contra essa discrepância. Os ouvidos são surdos.

O segundo sintoma foi a eliminação de alguns editais. A justificativa é que seriam fundidos em editais ‘mais simples, menos burocráticos’. Mais uma vez o discurso da eficiência de gestão seria utilizado para argumentar contra os receios críticos que já se faziam ouvir.

A definitiva mostra que a lógica social brasileira (monoculturas, latifúndios, elitização da riqueza, concentração de renda, desigualdade na distribuição de renda, privatizações, submissão ao deus mercado, unificação de pensamento etc) seria estendida ao setor audiovisual ocorreu quando um ranking estapafúrdio foi escancarado como norteador para a classificação de projetos. A lógica assumiu seu contorno definitivo. Um realizador, ao se pronunciar a respeito, resumiu a situação: tinha mais de 18 anos de profissão, tendo suas produções direcionadas a curtas-metragens, muitos premiados inclusive fora do Brasil. Havia sido convidado para dirigir uma comédia que certamente teria mais de um milhão de espectadores. Não quis, por achar que não tinha afinidade com o tema. No ranking atual, esse realizador tem a nota mínima na pontuação. Se tivesse aceitado o trabalho da comédia, pularia para 8, 9 ou 10.

Outro exemplo: uma produtora iniciante de Fortaleza tencionava entrar no edital para tentar seu primeiro longa de ficção. Foi desencorajada, pois não tinha um diretor que pontuasse e nem a produtora possuía classificação que permitisse a inserção no mercado. A produtora desistiu de tentar.

É fato que a descentralização e a regionalização das produções incomodariam grandes produtoras dos eixos dos estados mais centrais politicamente do Brasil (sim, leiamos São Paulo, Rio de Janeiro etc). Nos últimos anos, bons projetos desenvolvidos por produtoras fora do eixo galgaram espaços, dividiram recursos, espalharam olhares e começaram a ser mais e mais competitivas. Exemplos simples: pelo menos quatro longas-metragens em etapas diferentes de produção realizando-se em Belém do Pará; Rondônia e Amapá iniciando pré-produções de seus primeiros longas de ficção na história. Mato Grosso lançando seu primeiro longa em muitas décadas. Novos olhares e perspectivas. De um momento para o outro, as portas começam a se fechar novamente.

As justificativas elencadas por Christian de Castro sempre se voltam para a questão de que os 158 filmes num ano respondem a apenas 7% do mercado. Analisa o resultado final e não o processo, ou seja, o imenso poder que a distribuição de filmes possui. Uma pequena lembrança histórica: Segundo o pesquisador André Gatti, “as grandes distribuidoras-produtoras buscaram a internacionalização e a penetração em larga escala nos mercados externos, para aumentar seus lucros, diminuindo riscos e eliminando a concorrência. No Brasil, a associação com o exibidor brasileiro foi feita visando a tornar predominante o produto importado e resultando no alijamento do produto nacional ainda na década de 1910”. Não é um processo natural essa participação menor do produto brasileiro nas telas.

Ao percebermos a fala do diretor-presidente da Ancine notamos que ela se assemelha ao discurso enviesado da meritocracia contra as cotas sociais no país e à fala preconceituosa contra as iniciativas de distribuição de renda que diminuíram as desigualdades regionais e econômicas no Brasil.

O ponto culminante do processo de alijamento e exclusão desencadeado pela Ancine foi o sistema de inscrições nos atuais editais de fluxo contínuo. É como se fosse um sistema de atendimento do SUS, INSS, Auxílio-desemprego ou qualquer outro serviço público no qual o contribuinte precisa dormir a noite inteira guardando lugar na fila para conseguir uma senha de atendimento. Pois foi assim que se deu no último edital modalidade B, com produtoras de pequeno porte desdobrando-se em um autêntico mutirão de solidariedade para que alguns projetos conseguissem ser inscritos. Isso porque o regulamento prevê um limite de inscrição até o dobro do valor disponibilizado. Isso para inscrições que vêm do Brasil inteiro. O resultado é previsível: sistema que trava, pessoas se atropelando para preencher os formulários requisitados. ‘Uma prova do BBB’, como lembrou um realizador ao perceber a confusão.

Nos últimos anos, o setor do audiovisual foi um dos poucos setores nacionais a passar quase incólume pela chamada crise econômica que se abateu no mundo. Gerou mais emprego e renda que muitos setores considerados menina dos olhos do governo, como o automobilístico, por exemplo. Os recursos foram bem distribuídos por todo o território nacional.

É claro que isso uma hora seria bombardeado. É como se parte do mercado audiovisual e a cúpula Ancine-Ministério da Cultura exclamassem: ‘Onde já se viu pequenos querendo a mesma fatia que uma elite? Ponham-se no seu lugar, produtoras e roteiristas à margem’.

Quem sabe essa lógica unicamente neoliberal venha a ser revista com um novo governo que de fato esteja comprometido com democracia. A hora de cobrar é agora. Mãos à obra.

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Leo Garcia é sócio da Coelho Voador, uma das principais produtoras de roteiro do Brasil. Mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha), escreveu roteiros para longas, curtas e séries, tendo vencido diversos editais e premiações. Já teve trabalhos exibidos na RBSTV, Globo Internacional, TV BRASIL, Canal Brasil, TVE, Prime Box Brazil e festivais mundo afora. Leo é o diretor-geral do FRAPA, o maior festival de Roteiro da América Latina.

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