Artigo original por Nell Scovell: https://www.thecut.com/2018/05/david-letterman-netflix-tina-fey-interview.html

Tradução: Catarina Bassotti, Ludmila Naves e Júlia Rodrigues Mota.

David Letterman gravou mais de seis mil horas de um talk show, o que significa que ele deve ser bom em falar. É por isso que fiquei surpresa quando ele levantou a questão das mulheres na comédia com Tina Fey na sua série do Netflix, “My next guest needs no Introduction” (Meu próximo convidado dispensa apresentações) e desencadeou uma conversa estranha.

O histórico de Letterman com “as mulheres na comédia” é preocupante. Nos 33 anos em que o programa de David foi ao ar na TV aberta americana, nos canais NBC e CBS, roteiristas mulheres de comédia e comediantes de stand up comedy tiveram pouquíssima representação, lutando muito para conseguir apenas 10% de inclusão, seja nas salas de roteiristas, seja no palco do programa. Quando eu entrei para a sala de roteiristas, na nona temporada, pelo menos 24 roteiristas homens tinham feito parte da equipe. Eu era apenas a segunda mulher.

Há também a questão sobre o que o Letterman falou no ar em 2009: “Eu fiz sexo com mulheres que trabalharam para mim nesse programa”. Na época, antes do movimento #MeToo, Letterman teve um passe livre (ou quase). Ao abordar a questão com uma dos comediantes mais bem-sucedidas de Hollywood, Tina, ele poderia ter admitido suas falhas. Em vez disso, tentou evitar críticas ao seu passado. E embora seus argumentos tenham sido ditos com a aparência de algo lógico, eles foram uma aula magna de distorção.

Aqui estão as primeiras 179 palavras da entrevista. Veja se consegue identificar os diferentes tipos de retórica manipuladora. Eu contei pelo menos dez.

David Letterman: Eu sei que você não gosta de falar sobre esse tópico, e é um tópico sem uma resposta correta, mas, “Mulheres na comédia”. E eu sei o quão generosa você tem sido com outras mulheres ao longo dos anos, na tentativa de corrigir esse descuido. Agora, quando eu tinha um programa de televisão, as pessoas me perguntavam o tempo todo “Por que você não tem mulheres na sua equipe de roteiristas?”. E o melhor que eu conseguia responder sempre foi “Eu não sei”.

Tina Fey: Sim.

Letterman: Eu não sabia o motivo da falta de mulheres na sala de roteiristas. Eu não sei ainda. Não havia uma política de não contratação de mulheres.

Tina Fey: Certo.

Letterman: E eu pensei: “Bem, nossa, se eu fosse uma mulher não tenho certeza de que eu gostaria de escrever no meu showzinho barato e pretensioso de qualquer jeito, já que nós só vamos ao ar às 00:30.”

Fey: Beleza, mas na verdade a gente quer escrever nesse programa. (A plateia ri e aplaude).

Letterman: Sim. Mas essa é a minha ignorância. E eu me sinto mal por isso, e isso está mudando. Já mudou.

Antes de Letterman chegar à primeira vírgula, ele conclui que está criando “um tópico sem resposta”. Isso é uma hipérbole. Na verdade, esse problema “insolúvel” pode ser corrigido amanhã. A resposta é incrivelmente fácil: contratar mais mulheres engraçadas. Elas estão em todo lugar.

Letterman continua e reconhece que Fey tem defendido muitas as mulheres comediantes, o que ele descreve como “correção de um descuido”. Esse é um bom exemplo de trivialização retórica. Um “descuido” é quando você não recebe um convite para uma festa. A “festa” de Letterman durou 33 anos. E se roteiristas mulheres foram um “descuido”, então as minorias raciais foram um ponto cego total — suas equipes de roteiristas nunca incluíram uma pessoa negra, asiática, latina etc.

Partindo apenas das primeiras duas frases, percebemos que, do ponto de vista de Letterman, o problema de não contratar mulheres (1) é insolúvel e (2) não é tão grave assim. Mesmo assim, “as pessoas” o forçaram a considerar essa questão e, depois de pensar muito no assunto, ele aparece com essa revelação: “Eu não sei”. Letterman é um cara inteligente, então isso me soa como se ele estivesse se fazendo de burro. É possível que ele esteja tentando lançar umas dúvidas para deslegitimar o assunto, ou simplesmente quis se distanciar dos “descuidos”. Isso parece desonesto, dado que ele tinha o poder de escolher seus roteiristas. (Antes da minha contratação, eu fui chamada para conhecer e ser aprovada por Letterman). Para mim, ele parece com o menino que foi pego com a cara toda lambuzada de chocolate e que “não tem ideia” do que aconteceu com o último pedaço de bolo.

Em seguida ele alega que “não sabia onde estavam as mulheres roteiristas”, e aí as coisas ficam esquisitas. Um pouco antes, nessa mesma entrevista, Letterman lembra que Fey foi a primeira roteirista-chefe mulher do Saturday Night Live, mas tecnicamente a primeira roteirista-chefe do formato noturno do programa foi Merrill Markoe, que é co-autora do Late Night com seu namorado na época, Letterman. (Aliás: a equipe de roteiro do programa ganhou Emmys todos os anos até que Markoe deixasse o programa em 1987. Depois disso, Late Night não ganhou mais Emmys de roteiro.) Será que Letterman esqueceu de Markoe? Isso aqui já é mais do que um simples lapso de memória, é desinformação mesmo. Eu conversei por e-mail com Markoe, que é minha amiga, e perguntei porque ela acha que o nome dela escapou à memória de Letterman. Ela respondeu, “porque na época nós estávamos transando, talvez ele se lembre de mim como uma estagiária”.

Depois de criar a falácia do espantalho* de que mulheres não estão interessadas em trabalhar em um programa de televisão premiado, Letterman coloca as coisas de forma a se absolver de qualquer culpa. “Não existia nenhuma política de exclusão de mulheres roteiristas”, ele diz. Alguém por favor pode explicar a diferença entre discriminação de jure e de facto para este Letterman de 71 anos de idade? O que ele implica aqui, é que se as mulheres não estavam lá, é porque a culpa deve ser delas.

Jogar toda a culpa em um bode expiatório é feio, e talvez Letterman tenha percebido isso porque logo mudou sua tática. Em vez de desconsiderar as mulheres, ele começa a desconsiderar ele mesmo: “Bem, nossa, se eu fosse uma mulher não tenho certeza de que eu gostaria de escrever no meu showzinho barato e pretensioso de qualquer jeito, já que nós só vamos ao ar às 00:30.”. Retoricamente, tem muita coisa acontecendo nessa frase: generalização, auto-depreciação, falsa modéstia e dissimulação.

Resumidamente, é absurdo. Porque o programa das 00h30 era suficiente para os homens mas não para as mulheres? A equipe — que juntamente com Markoe, tinha George Meyer, Andy Breckman and Jim Downey — dificilmente era formada por talentos “baratos”. Todos os roteiristas começaram com o salário-base do Writers Guild, que é mais alto do que a maioria dos trabalhos de roteiro não relacionados à televisão; eles também tinham direito a pensão e plano de saúde. O argumento de Letterman também indica que quando o programa mudou para as 23h30, o número de mulheres teria aumentado. Não aumentou. Quando Letterman saiu do ar em 2014, ele tinha uma única mulher roteirista em sua equipe — exatamente o mesmo número de mulheres que ele tem agora em seu novo programa do Netflix.

Fey refutou a falácia de Letterman de que as mulheres não queriam trabalhar em seu programa com uma resposta linda e simples: “Beleza, mas na verdade a gente quer escrever nesse programa”. Se ele estava procurando por absolvição, não foi isso que ele conseguiu. Isso deixou Letterman sem escolha a não ser voltar a se fazer de burro. “Mas essa é a minha ignorância”, ele responde. “E eu me sinto mal por isso…”.

Ou talvez não. Em 2014, eu escrevia para o The Kennedy Center Honors quando Letterman apareceu para homenagear Tom Hanks. Depois que o show terminou, meu antigo chefe e eu tivemos um breve momento sozinhos, e perguntei a ele bem diretamente sobre a falta de diversidade em sua equipe de redatores. Por trás das câmeras, a resposta de Letterman foi menos simpática. “Eu não me preocupo com essas coisas”, ele me disse. E isso, creio eu, é a verdade.

Letterman pode achar que ele merece pontos por levantar um assunto difícil. Em vez disso, ele ganha pontos por oferecer uma ilustração perfeita do que as mulheres e as pessoas de cor enfrentam. Se nas três décadas anteriores, Letterman tivesse contratado um número maior de roteiristas com alguma diversidade, ele teria transformado o mundo da comédia. Ele escolheu não fazer isso e isso será o seu legado.

Letterman finalmente desiste do tópico com uma afirmação generalista que diz: “Está mudando, já mudou”. Ele não ofereceu nenhuma evidência para bancar sua afirmação e se as coisas tivessem realmente mudado para as mulheres na comédia, ele não teve participação alguma. O novo show de Letterman no Netflix não dá créditos para redatores ou roteiristas, mas tem uma lista de quatro produtores executivos. Os quatro executivos são homens, então, lição aprendida. (Isso foi sarcasmo direto do meu home office).

Falácia do Espantalho é uma manobra argumentativa que consiste em ignorar os argumentos do adversário e substituí-los por uma versão distorcida, que representa essa mesma posição de forma errada.

COMPARTILHAR
Leo Garcia é sócio da Coelho Voador, uma das principais produtoras de roteiro do Brasil. Mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha), escreveu roteiros para longas, curtas e séries, tendo vencido diversos editais e premiações. Já teve trabalhos exibidos na RBSTV, Globo Internacional, TV BRASIL, Canal Brasil, TVE, Prime Box Brazil e festivais mundo afora. Leo é o diretor-geral do FRAPA, o maior festival de Roteiro da América Latina.

DEIXE UMA RESPOSTA