por Leandro Matos*

Comecei no cinema há uns 15 anos atrás. O mercado era completamente diferente e trabalhar como roteirista era visto como um hobby, algo que meus amigos de fora da área não cansavam de me dizer. Enquanto eu não explodia como roteirista (aliás, quando é que isso vai acontecer mesmo?), me virei como pude. Encontrei uma casa e uma família no Festival do Rio, onde trabalhei por 11 anos. Lá aprendi uma regra essencial:

           Soça é trabalho 

Essa é chata até não poder mais, mas é verdade. Soça é trabalho. Repita três vezes. Repita mil vezes. Se convença disso. Aprenda a gostar. Quando você conhece um produtor pessoalmente, você vira um rosto, um sorriso, um papo maneiro, e deixa de ser só um @ frio e distante. É mais fácil lembrarem de você assim. Vá nos debates, eventos e festivais de cinema. Aproveite essa oportunidade para se apresentar. Dá pra ver pelos sites quem vai estar presente. Mande e-mails, marque reuniões. Marque um café. ACIMA DE TUDO, as pessoas estão ali pra isso. E você também deveria. No último RioContent Market eu descobri que um agente da CAA viria de Los Angeles dar uma palestra, chutei o e-mail do cara, acertei no segundo chute e o cara topou conversar comigo. O cara pediu pra ler meus materiais e no fim da nossa reunião, disse que quis conversar comigo porque ninguém costuma fazer o que eu fiz. Pode não dar em nada? Pode. Mas é um treino pra que, no dia em que eu estiver frente a frente com quem vai fazer a diferença na minha vida, eu não vacile. O chute no cara da CAA me deixou tão animado que essa semana eu já mandei email pra Spielberg@gmail.com, martin.scorcese@uol.com e CNolan@hotmail.com. Vamos ver se algum deles me responde… Não custa repetir: vários dos últimos trabalhos que eu fechei começaram com uma reunião descontraída com pessoas que eu sequer conhecia, fazendo lobby no lobby, só porque eu mandei um e-mail me apresentando. E quando eu digo vários, quero dizer vários. Mesmo.

           Não mande seu currículo por email

Essa eu demorei pra descobrir. Mandar currículo por email não serve para NADA. Aliás, serve sim. Serve pro produtor responder “obrigado, vamos guardar ele aqui pra uma oportunidade futura”. Não se sabote. Se você manda o currículo por e-mail, em tese já está mandando tudo o que a pessoa precisa saber sobre você, sem ela saber nada de verdade sobre você. O que fazer então?

           Café é vida.

No corpo do e-mail, mande uma bio sua. CONCISA. No máximo, 3 parágrafos com 5 linhas cada. Menos é mais aqui. Se apresente, conte um pouco a sua história e cite os projetos que você fez. Currículo faz diferença? Claro que faz. Não fez muita coisa? Fale do que te inspira, do por quê quer escrever, abra seu coração. Essa é a sua primeira apresentação, ou seja, faça com que ela seja legal e desperte a curiosidade do produtor. Desperte nele a vontade de te conhecer. No fim, se convide para um café. Diga que você gostaria de se apresentar pessoalmente. Um café dura 5, no máximo 10 minutos. Todo mundo tem 10 minutos na vida. Menos, é claro, no Rio.

           Faça a Anne Hathaway

Conseguiu a tal reunião? Ótimo. Vá, dê o seu melhor. Seja sincero, sem ser puxa-saco. Se conseguir ser sincero com sinceridade, melhor ainda! Conte sua história de vida. Melhor: aprenda a contar a história de sua vida de uma maneira interessante. Você é roteirista, certo? Mas o principal: descubra o que a produtora está procurando. Escute. Sabe por quê?

           Todo mundo é versátil. Até os produtores

Não desconsidere uma produtora só porque ela só fez comédias e teu filme é um drama. Você não sabe o que eles estão buscando até ouvir isso da boca deles. Eu fechei uma comédia romântica com a produtora do Quebrando o Tabu. Quando mandei o projeto pra eles, tinha certeza que não ia dar em nada, que eles nunca iriam querem um projeto desses. Quebrei a cara. Quebrei meu tabu (num guentei, desculpa o trocadilho). Foi a melhor quebrada de cara da minha vida.

           3 páginas tem 7 páginas a menos que 10 páginas

Lembra quando eu falei lá em cima de colocar os projetos no papel? Na reunião, com certeza vão pedir pra ver os teus projetos. Então, ter dois projetos pra mostrar é melhor do que um. Três é melhor que dois e por aí vai. Quando eu fui pra SP, estava com 20 projetos embaixo do braço. Mas eu passei um período contemplando o nada, então tive tempo pra colocar essas ideias no papel. Não precisa ter tudo isso, mas ter um portfólio sempre é válido. Eu me acostumei a sempre mandar dois ou três projetos, pra mostrar a variedade do que eu gosto de escrever e dar opções pra produtora escolher um. E não adianta ter argumentos longos: nesse primeiro momento, 2 ou 3 páginas é ideal. Um resumo matador do teu projeto, que é rápido de ler e desperte o interesse. Se quiser, inclua uma página de apresentação (ou one-page pitch, dá um Google), explicando os motivos de você querer contar essa história. Isso ajuda no entendimento do argumento resumido. Pense assim: é mais fácil o produtor ler 3 páginas do que 10 páginas. Demora menos tempo, demanda menos concentração e interpretação de texto. Até porque o telefone está tocando, os e-mails chegando e a vida urge. Se a pessoa gostar, vai te procurar e pedir pra ler mais. Esse doc pequeno é o primeiro passo pro início do teu projeto. É melhor começar com pouco e ir complementando do que mandar algo super completo e imenso que não vai ser lido. Eu tenho feito assim, e tem dado muito certo. Porém…

           Todo projeto tem uma produtora certa

E às vezes demora pra você descobrir qual é. Você manda o projeto, a pessoa demora 3 meses pra responder e é uma negativa. Ou não responde, o que também é uma negativa. O projeto é uma droga? Pode ser. Mas pode ser também que aquela não seja a produtora certa pra ele. Assim que eu cheguei em São Paulo, mandei 3 argumentos diferentes para 3 produtoras. Um para cada uma. As três produtoras não gostaram dos projetos, mas queriam ver outra coisa que eu tivesse disponível. Eu peguei esses mesmos 3 argumentos, remanejei e mandei pras mesmas 3 produtoras. As 3 fecharam na segunda tentativa. Ou seja:

           Tenha paciência

Nosso trabalho é de cozimento lento. O primeiro tratamento do meu filme Amor.com foi escrito em 2011 e ele só foi rodado em 2016. Eu acabei de entregar o primeiro tratamento de outro longa que eu comecei a negociar no segundo semestre de 2016. E não existe essa coisa de queimar cartucho: vá se apresentar. Se faça conhecer. Uma produtora me ligou no último mês, me chamando pra um trabalho, quase dois anos depois da gente ter conversado. Infelizmente eu não pude aceitar o convite, mas ela reiterou que querem fazer um trabalho comigo e que eu estou sempre no radar. É uma empresa que eu sonho em trabalhar. Mantive a seriedade, me despedi e claro, rolou dancinha feliz na sala de casa depois que desliguei o telefone, mesmo sem o trabalho. As coisas às vezes demoram pra acontecer no nosso mercado. Por isso, quanto mais projetos ou conversas você tiver, mais sementes você está plantando para o futuro. E se você mandou um projeto e não teve resposta, espere um mês e mande um novo e-mail perguntando, sem pressionar muito, se a pessoa teve a oportunidade de ler o que você mandou. Se em três meses nada acontecer, pode partir pra outra sem hesitar.

Agora os dois itens mais cruéis:

           Nem tudo o que a gente escreve merece ser produzido

Essa é uma pílula difícil de engolir. Demanda um trabalho diário de autoconvencimento. Eu sei o que você tá pensando: “a gente luta tanto, tem zero estabilidade no mercado e vem esse babaca dizendo que além de tudo eu ainda tenho que entender que aquele meu projeto da vida não merece ser produzido?” É foda. Eu sei. Mas é verdade. Nem todas as nossas ideias são boas ideias. Nem todas elas devem seguir em frente. Talvez a nossa melhor ideia seja de fato incrível e mesmo assim não vá acontecer. Não adianta lutar. Quer dizer, adianta sim, mas não adianta virar uma pessoa amarga por causa disso. Eu descobri, com o tempo, que não preciso que todos os meus projetos se realizem. Estou feliz somente de ter colocado eles no papel. Até porque, mesmo que não aconteçam, continuam sendo parte do meu portfólio, continuo usando eles pra conseguir outros trabalhos. Ter um leque de projetos ajuda nessa questão, você não coloca todas as suas esperanças numa ideia só, não é um vai ou racha. Se você estiver ocupado desenvolvendo vários projetos ao mesmo tempo, pode até esquecer dessa ideia que, olha que coisa, era o teu projeto da vida. E claro, sempre existe a possibilidade deles acontecerem em 5 anos. Ou 10. Ou 15… lembra do cozimento lento?

           Não tem coisa pior que pai e mãe cegos

Sabe aquele teu projeto de arte, que vai ganhar o Oscar, a Palma de Ouro, a Copa do Mundo, o Nobel da Paz, a Medalha Copley e bater a bilheteria do Minha Mãe é uma Peça 2, tudo ao mesmo tempo agora? Então… não. Apenas.

Teu projeto existe por conta própria independente de como você o enxerga. Não adianta você criar um projeto mudo com 5 horas de duração e tentar convencer o mundo que esse filme vai dar dinheiro porque você acredita nisso. Aprenda o quanto antes a olhar pro que você escreve de forma OBJETIVA. Se você não sabe os pontos fortes e fracos do teu projeto, se você não sabe pra quem está falando (“para toda a família” não é resposta), se você só consegue ter uma visão romântica do teu trabalho, olha…  isso torna tudo mais difícil. Essa falta de clareza não acontece só com os roteiristas, é um problema da cadeia inteira, afeta diretores, produtores, canais… mas é aquilo, né? Eu não tô afim de me jogar embaixo do trem só porque a galera toda tá fazendo isso.  Morram aí que enquanto isso eu vou tocando o barco. E quanto mais entendimento você tem do teu projeto, mais fácil é vende-lo.

           A última dica desse quase livro

O mercado americano/inglês/mexicano/insira-a-nacionalidade-de-sua-preferencia-aqui é bem diferente do nosso. Mas isso não significa que você não possa roubar táticas e metodologias que pareçam interessantes. Caia na internet e veja como a galera faz lá fora. Comece a fazer igual. Sites como Bang2Write tem textos ótimos, cheios de dicas preciosas. Além disso te dar uma ajuda com os players internacionais que estão entrando aqui no Brasil, ainda passa uma imagem de preparação beeeeem interessante para os nacionais.

           E pra finalizar: mande seus projetos sem medo

Roteirista é bicho desconfiado, sempre acha que se sair mostrando seus projetos por aí vai ter suas ideias roubadas. Pode acontecer? Pode, claro. Mas a outra opção é ficar dormindo abraçado com seus projetos e não mostrar eles pra ninguém. E aí, como eles vão acontecer? Ideias estão no ar, se você não levar a tua pra frente alguém vai fazer alguma coisa muito parecida. Nos últimos 2 anos, por 3 vezes eu vi projetos anunciados que eram muito parecidos com coisas que eu estava desenvolvendo. E veja bem: eu ainda não tinha mostrado pra ninguém, ou seja, foi coincidência. O que eu fiz? Foquei nos outros projetos que eu tinha e estou dando tempo ao tempo. Nosso mercado é cíclico. This is Us tá aí pra preencher a vaga de Parenthood, que preencheu a vaga de Brothers and Sisters, que preencheu… bom, você entendeu, certo?

           E pra finalizar mesmo mesmo

Tudo o que eu escrevi aqui foram coisas que eu vivenciei. Meu currículo e minha experiência com certeza contaram ponto quando fui pra São Paulo. E mesmo assim várias vezes ainda dou com a cara na porta. Não é uma receita de bolo, pode ser que não dê certo pra todo mundo. Pode ser que alguém com menos experiência que eu não tenha a mesma recepção. Pode ser que eu fale ou faça alguma coisa que eu nem sei o que é e que faz toda a diferença. Não tenho como saber. Mas a ideia desse relato é estimular a galera. Porque às vezes tudo o que a gente precisa é de um empurrãozinho…

*Leandro Matos é formado em Cinema e em Roteiro para Televisão. Começou a carreira no seriado Cilada e participou de diversas séries, como Morando Sozinho, Drunk History, Superbonita, Se Eu Fosse Você – A Série e Samantha!  No cinema, escreveu os longas Amor.com, Divã a 2 e Minha Família Perfeita. Trabalhou por 5 anos como analista de projetos e roteirista da Total Filmes e escreveu para produtoras como Mixer Films, Los Bragas, Conspiração e Eyeworks. Atualmente escreve longas para as produtoras Spray Filmes, Cinefilm, Dib Produções e para a distribuidora Imagem Filmes.

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Leo Garcia é sócio da Coelho Voador, uma das principais produtoras de roteiro do Brasil. Mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha), escreveu roteiros para longas, curtas e séries, tendo vencido diversos editais e premiações. Já teve trabalhos exibidos na RBSTV, Globo Internacional, TV BRASIL, Canal Brasil, TVE, Prime Box Brazil e festivais mundo afora. Leo é o diretor-geral do FRAPA, o maior festival de Roteiro da América Latina.

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