Por Leandro Matos*

Vida de roteirista freela é que nem aquela cena inicial no Premonição 3: um passeio na montanha-russa que invariavelmente termina com descarrilamento, mortes e muito sangue. Uma escolha que a gente faz quando percebe que mergulhar com tubarões sem proteção não é adrenalina suficiente. Apenas.

Trabalhei por 5 anos como roteirista fixo numa produtora grande do Rio de Janeiro, até decidir que estava na hora de voltar a ser soltinho em 2014. E vou dizer: não foi fácil voltar a ser freela. Fiquei muito tempo sem trabalhar (muito tempo meeeeesmo, mais de um ano), e esse foi um período ótimo para eu me convencer de que escrever roteiro não era algo que eu sabia fazer. Com certezas as pessoas que me empregaram como roteirista nos últimos 8 anos eram completamente malucas, coitadas.

Em 2016, no auge desse belo momento de auto-conhecimento, decidi largar tudo e ir pra São Paulo. “Se é pra fracassar, pelo menos que eu fracasse onde ninguém me conhece”, pensei. Fiz as malas e fui-me embora do Rio. Nunca tinha trabalhado em São Paulo, não sabia NA-DA do mercado da cidade. E a primeira coisa que eu descobri, logo que cheguei foi:

            São Paulo e Rio de Janeiro são países diferentes

Cada cidade tem sua particularidade, e isso pode ser dito também sobre as outras cidades produtoras de audiovisual no país. Você precisa descobrir em qual delas se sente mais confortável para trabalhar. Não existe resposta certa. Eu me apaixonei perdidamente pelo profissionalismo de São Paulo. Confesso que estava cansado do estilo “relax” do Rio. E principalmente, estava cansado da regra “panela acima da experiência”, predominante no balneário.

Procurar trabalho onde ninguém me conhecia fez muito pra abrir minha cabeça. E eu descobri uma coisa maravilhosa:

            Quem não me conhece não sabe que eu tenho alma de bucha

Quando você trabalha por muito tempo nos mesmos círculos, todo mundo sabe como você funciona. Sabem o que podem te pedir e o que não podem te pedir. E principalmente: sabem o quanto podem abusar de você. E todo mundo aqui sabe como funciona quando a gente tá começando: trabalhamos de madrugada, no fim de semana, saímos do cinema no meio da reviravolta pra responder e-mail, desmarcamos o encontro com o crush pra reescrever aquela cena que não é nem um pouco importante, mas temos que mostrar serviço. Mas quando não existe ninguém por perto pra contar o quão trouxa você é, você pode fingir que não é trouxa e impor limites. E aí, com o tempo, você pode escolher pra quem você quer, de fato, ser bucha. E isso, meu amigo, é libertador. Além disso, existe uma outra maravilhosidade em sair da zona de conforto:

            Pessoas muito próximas não enxergam nosso crescimento

Essa é meio deprimente, mas é a mais pura verdade. É difícil pra gente perceber a evolução dos outros. Pensa assim: nossos amigos do colégio não são mais quem eles eram naquela época, por mais que a gente lembre deles daquele jeito. É a mesma coisa no trabalho. Eu só realizei o quanto eu cresci profissionalmente nos meus 10 anos como roteirista quando pessoas completamente desconhecidas começaram a apontar esse crescimento, algo que eu nunca tinha ouvido dos amigos da área no Rio, que ainda me viam como o mesmo roteirista iniciante de 10 anos atrás. E já ouvi de uma amiga que fez o caminho inverso que o mesmo aconteceu com ela.

Mas além dessas descobertas, digamos assim, mais universais, desbravar um mercado desconhecido me fez encontrar um monte de caminhos e dicas e técnicas e coisas a fazer e coisas a fugir. Vamos à elas:

            Lugar de ideia é no papel

Não adianta ser roteirista freela e não ter coisas pra mostrar. Coloque suas ideias no papel. Gaste um tempo do seu dia pra isso. Você não pode exigir que alguém perca 15 minutos para ler o seu material se você não gasta 15 minutos por dia pra colocar suas ideias no papel. Escreva. Monte um portfólio. E quanto maior ele for, melhor (mais sobre isso em breve);

            Pesquise o mercado e descubra as pessoas

Não dá pra dizer que não tem como falar com as pessoas hoje em dia. A internet tem TU-DO. Entre no site da Bravi e procure a lista de produtoras associadas. Tem umas trocentas mil ali. Entre nos sites, descubra quem é quem. Tente descobrir seus e-mails. Vá na pessoa certa, alguém que faça sentido. contato@empresa ou info@empresa pouco funcionam. Mas também não é pra mandar email pro Fernando Meirelles (ou talvez seja, eu nunca tentei…). Toda empresa tem alguém que analisa projetos, que contrata os roteiristas. Tente descobrir. É chato? Nossa, pacas, é um trabalhão. E eu sei porque eu entrei em TODOS os sites. É o único caminho? Não. Mas é um…

            E-mail existe pra ser escrito

Não tenha medo de mandar e-mails. E pare de depender dos outros pra indicações. Tenha coragem e vá atrás sozinho mesmo. Eu não tenho como descrever o quão incrível foi pra minha auto-estima perceber que eu estava marcando reuniões, fechando trabalhos e desbravando o mercado de SP por conta própria. A verdade é que a gente precisa dos produtores tanto quanto eles precisam da gente. Eles precisam de projetos. E tem gente escrota dos dois lados. Mas a maioria das pessoas é legal (pelo menos no primeiro contato). Isso vale inclusive para a possibilidade abaixo.

            Não teve resposta? Escreva de novo

Mas veja bem, aqui é necessário um mínimo de equilíbrio emocional. Não dá pra ficar mandando e-mail todo dia pra mesma pessoa. Em primeiro lugar, em São Paulo as pessoas demoram 2 ou 3 dias para responder. É normal. No Rio… estou esperando respostas de e-mails que mandei em 2015 (sério). Agora, se você mandou um e-mail e a pessoa não respondeu, espere uns dois meses e tente de novo. Veja se a produtora tem alguma outra pessoa interessante para contatar e tente ela. Entenda, não é pessoal; produção é um trabalho insano e se a pessoa estiver no meio de uma filmagem, é bem provável que receba 400 e-mails por dia e deixe o seu, que não é prioridade, pra outra hora. Ela vai esquecer disso, mas não é por mal. Não tenha medo de tentar de novo. Existem milhares de explicações pra uma não resposta e pode não ser “o produtor me odeia não devia ter mandado esse e-mail”. Eu já fiz isso várias vezes e deu certo. Mas, é claro, tem vezes que tentar duas, três, quatro vezes não adianta. Cada caso é um caso.

            Seja conciso

Algo que eu, claramente, não sou. Escrevi tanto que essa coluna vai vir em duas partes. A segunda chega em breve…

*Leandro Matos é formado em Cinema e em Roteiro para Televisão. Começou a carreira no seriado Cilada e participou de diversas séries, como Morando Sozinho, Drunk History, Superbonita, Se Eu Fosse Você – A Série e Samantha!  No cinema, escreveu os longas Amor.com, Divã a 2 e Minha Família Perfeita. Trabalhou por 5 anos como analista de projetos e roteirista da Total Filmes e escreveu para produtoras como Mixer Films, Los Bragas, Conspiração e Eyeworks. Atualmente escreve longas para as produtoras Spray Filmes, Cinefilm, Dib Produções e para a distribuidora Imagem Filmes.

 

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Leo Garcia é sócio da Coelho Voador, uma das principais produtoras de roteiro do Brasil. Mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha), escreveu roteiros para longas, curtas e séries, tendo vencido diversos editais e premiações. Já teve trabalhos exibidos na RBSTV, Globo Internacional, TV BRASIL, Canal Brasil, TVE, Prime Box Brazil e festivais mundo afora. Leo é o diretor-geral do FRAPA, o maior festival de Roteiro da América Latina.

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