Por Melina Guterres, Jornalista e roteirista associada a Abra

A Abra realizou uma série de entrevistas com os protagonistas do prêmio de Cabíria de roteiro que estimula o protagonismo feminino no cinema.  Já conversamos com a Thais Fujinaga, Georgina Castro, Isabella Poppe e encerramos hoje com Cássio Pereira. Ele ganhou uma consultoria do roteiro por A Terra e os Sonhos, que fala sobre uma menina de 11 anos quilombola nascida e criada no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Cássio é graduado em Comunicação Social/Cinema pela Universidade de Brasília. No início de sua trajetória profissional, na cidade de Brasília, trabalhou como produtor de séries documentais na TV Escola, além de prestar serviços de assistência de direção para cinema e publicidade. Como realizador independente, dirigiu 8 curtas-metragens, trabalhos que foram selecionados e premiados em dezenas de festivais brasileiros, além de receber prêmios no Japão, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Índia e Taiwan. São trabalhos como os curtas “Menina Espantalho” e “Marina não vai à praia”, que não apenas conquistaram reconhecimento técnico e artístico, mas que também dialogam de forma eficaz com o público infantil e adolescente. Atualmente, Cássio desenvolve os projetos de dois longas-metragens, além de preparar uma série de TV para crianças.

O prêmio Cabíria em 2017 teve 120 roteiros e 30 deles foram indicados como semifinalistas por um Comitê de Seleção que contou com 20 roteiristas mulheres voluntárias. Depois de mais de 4 meses de trabalho, os roteiros finalistas indicados pelo Júri de 2017 foram: Continente de Thaís Fujinaga – Prêmio Cabíria (Melhor Roteiro com Protagonista Feminina): R$ 7.000,00 (venceu o prêmio pelo segundo ano consecutivo), Hamster, de Georgina Castro – Prêmio Incentivo às Mulheres Roteiristas: R$ 3.000,00*, Aqueles olhos de carvão aceso, de Isabella Poppe – Tradução para o francês oferecida pela empresa francesa Manivane, A Terra e os Sonhos de Cássio Pereira – Consultoria de roteiro: oferecida pelo Maquinário Narrativo.

É importante recordar que das 2.583 obras audiovisuais registras na ANCINE em 2017, somente 17% foram dirigidas por mulheres e 21% são de autoria feminina. O Boletim GEMAA 2: Raça e Gênero no Cinema Brasileiro (1970-2016) mostra que histórias narradas nos filmes nacionais de grande público têm protagonismo maior de homens (62%), quase todos brancos (50%). As mulheres somam apenas 39% desse resultado, que cai dramaticamente numa proporção de 18 para 1 se considerarmos as protagonistas negras.

Confira a sinopse do roteiro e conversa com Cássio:

ROTEIRO: A TERRA E OS SONHOS

Sinopse: Jandira (11) é uma corajosa menina quilombola, nascida e criada no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Com a morte de sua mãe durante o parto, a menina se vê diante de um grande desafio: Jandira conseguirá conciliar os seus estudos com a responsabilidade de cuidar de sua irmã recém-nascida?

Como nasceu a ideia de seu roteiro?

​Em 2008 eu e minha irmã Erika produzimos um curta chamado A MENINA ESPANTALHO, realizado por meio do edital Curta Criança, do MinC e TV Brasil. Foi um filme realizado para exibição na televisão, ​mas que também nos fez descobrir o universo do cinema infanto-juvenil, e dos festivais voltados a este público.

Foi um filme inspirado em pequenas situações que nossa avó paterna nos contava sobre sua infância no interior de Minas e, principalmente, no desejo que ela tinha de aprender a ler. Nossa vó era analfabeta e após a morte dela, 15 anos atrás, uma tia nos mostrou um caderno onde ela treinava a escrita do seu nome para não passar a vergonha de usar a impressão digital nos documentos. O curta foi uma maneira de fazer essa releitura da infância da nossa avó, mas com certa fabulação e liberdade de criação. A boa recepção deste filme,  a forma como ele dialogou com o público, fez surgir em nós o desejo de desenvolver um longa metragem inspirado no curta. O carreira do curta nos ensinou que é fundamental produzir filmes que abordam a temática da educação, e o roteiro do longa “A Terra e os Sonhos” foi escrito a partir desta vontade de aprofundar um pouco mais na temática do curta, e também de continuar mergulhando no interior de Minas Gerais, desta vez no Vale do Jequitinhonha. O longa será dirigido por mim e pela minha irmã, Erika Santos.

O que você priorizara na construção de seus personagens?

​O potencial da protagonista se transformar no decorrer do filme. ​Neste sentido, procuro construir a estrutura da narrativa em torno das personagens, o avançar da história tem que servir a construção dos personagens, e não o contrário.

Que tipo de roteiros você gostaria de assistir mais na tv e cinema?

Os roteiros que mais gosto são, na verdade, estudos de personagens. Gosto quando há um mergulho na subjetividade do protagonista, descobrir o que há contraditório, o que há de humanidade.

Já possui novos roteiros em mente? Pode adiantar algo sobre os temas? O que gostaria ainda de escrever?

​Recentemente escrevi um telefilme chamado “Guigo Offline”, feito para veiculação na TV Cultura, e também está passando em festivais. Venceu melhor longa no Mix Brasil no ano passado. Tem temática LGBT e é voltado para o público infanto-juvenil. Acho importante escrever e produzir filmes que tenham personagens que fogem do padrão mais retratado pela mídia. Geralmente, a maioria dos protagonistas são homens, brancos, cis, heterossexuais, e quando os personagens fogem deste padrão, acabam sendo bastante estereotipados. Por isso acho importante escrever roteiros que ajudem a humanizar, aprofundar, e criar empatia em relação a todos os personagens que fogem desta norma. Também me interessam protagonistas infantis bem construídas, porque tenho a impressão que a infância precisa ser melhor retratada no cinema brasileiro. São personagens que me instigam desde os meus primeiros curtas, e acho continuarão protagonizando os próximos projetos.

Quais as dificuldades que sente no mercado audiovisual?

Ainda no início da minha carreira, cheguei à conclusão que não é bom ficar esperando convites para escrever, para dirigir, e por isso comecei a produzir meus próprios filmes, o que não é fácil. Há dois anos abri uma produtora ao lado da minha irmã, Erika Santos, que sempre produziu e agora está começando a dirigir. Além de ter de conciliar várias funções, de empreender um grande esforço na escrita de projetos que sejam fortes o suficiente para ganhar editais, talvez o mais difícil é lidar com a burocracia dos projetos, a demora para receber as verbas do governo. A gente ganha um edital e comemora, tem a impressão que está tudo resolvido, e na verdade não, tem mais uma avalanche de burocracia para vencer até a verba ser liberada. Muitos meses resolvendo burocracia. Tem que ter muito jogo de cintura e persistência.

Já sentiu alguma vantagem por ser homem?

Começando por algumas situações na infância e na adolescência, acho que sim. Isso por causa do machismo estrutural, inconscientemente incorporado na minha família. Sou o único filho homem e tenho duas irmãs mais novas, e era comum minha mãe pedir minhas irmãs para lavarem as louças em vez de mim. Isso é um exemplo simplório, mas diz muito da nossa sociedade, que ainda reproduz o machismo em dimensões bem maiores. Na minha adolescência, comecei a me interessar por cinema, a me tornar um leitor voraz, e a arte me proporcionou uma tomada de consciência sobre a existência do machismo e outras formas de opressão. Foi aí que caiu a ficha que não dá pra ficar reproduzindo o machismo nas situações do cotidiano, que todos precisam tomar consciência e dizer não para este tipo de opressão.

Percebe preconceito, diferença às mulheres?

​Percebo sim, tanto na vida quanto nos filmes. A gente sabe que isso se reflete em várias questões, desde a diferença salarial no mercado de trabalho até a falta de representatividade no cinema. Ainda faltam protagonistas femininas bem construídas, faltam mais mulheres atrás das câmeras, mais mulheres escrevendo e dirigindo. Algumas ações para dar mais oportunidades às mulheres começam a aparecer nas políticas públicas do audiovisual, mas penso que é preciso mais.

Apesar de existir o preconceito, tento fazer minha parte e contribuir como aliado. E esta minha fala não é simplesmente para fazer coro ao momento político, à tomada de consciência atual sobre o assédio e o machismo. Tenho sido aliado das mulheres desde meus primeiros passos no audiovisual (comecei em 2001), seja colaborando na assistência de direção e edição para diretoras, seja escrevendo protagonistas femininas que tentam fugir dos clichês, trazendo o máximo de mulheres como cabeças de equipe dos curtas, sempre ouvindo opiniões e respeitando a subjetividade das profissionais com as quais colaboro. A presença e a contribuição feminina sempre foi muito forte nos nossos projetos, e procuro me engajar como aliado.

Espero poder testemunhar um mundo com muito mais mulheres em posições de poder, tanto na vida quanto no audiovisual.

 

Saiba mais sobe o prêmio Cabíria:

https://www.cabiria.com.br

A 3ª edição do Cabíria está com inscrições abertas até dia 24 de abril em uma parceria com o FRAPA – Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre. A curadoria do festival irá indicar até 15 roteiros que serão avaliados pelo júri do Cabíria, composto por 5 mulheres do mercado audiovisual. Estão aptos a concorrer: roteiros de longa-metragem (ficção) com protagonistas mulheres, escrito por ou em coautoria com roteiristas do sexo feminino. Prêmio: R$3.000,00
Regulamento geral e inscrições:
https://www.frapa.art.br/ 

Releia a entrevista Com Marília Nogueira para Abra:

http://abra.art.br/blog/2017/03/26/marilia-nogueira-e-o-protagonismo-feminino-no-premio-cabiria/

 

Melina Guterres
Jornalista, roteirista, diretora, atriz, poetisa, ativista, fundadora Rede Sina (www.redesina.com.br), trabalha com produção de conteúdo, consultoria em comunicação. Tem curtas e vídeo clipe realizados como roteirista e diretora realizou extenso trabalho sobre ditadura militar no Brasil e América e produziu de seu primeiro roteiro de ficção de longa-metragem  “Clandestinos”  selecionado no Programa Ibermedia em 2009. Escreveu a série infantil “Despertos” para Panda Fillmes. Foi Jurada do Rota Festival de Roteiros do Rio de Janeiro e I Festival de Cinema Estudantil – CINEST. Como repórter trabalhou para Folha de São Paulo, Estadão, Uol na cobertura da tragédia da boate Kiss.  Estudou questões de gênero em disciplinas na pós-graduação da comunicação e teatro da USP. Além disso, fez cursos de interpretação com Fátima Toledo, Estrela Straus, Olga Reverbel entre outros. Foi presidente da Liga Jovem de Combate ao Câncer. Idealizadora de campanhas sociais. Criou e gerencia as fan pages e Salve Índios e As Mulheres que Dizem Não.  Mais em: www.melinaguterres.com

 

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Leo Garcia é sócio da Coelho Voador, uma das principais produtoras de roteiro do Brasil. Mestre em Roteiro de Ficção para TV e Cinema (UPSA – Salamanca, Espanha), escreveu roteiros para longas, curtas e séries, tendo vencido diversos editais e premiações. Já teve trabalhos exibidos na RBSTV, Globo Internacional, TV BRASIL, Canal Brasil, TVE, Prime Box Brazil e festivais mundo afora. Leo é o diretor-geral do FRAPA, o maior festival de Roteiro da América Latina.

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