Com nova série no ar, o roteirista Fabio Danesi, fala sobre os desafios e o novo momento do audiovisual no Brasil.

Baseada em fatos reais, “Rio Heroes”, a primeira produção do FOX Premium no Brasil em 2018, conta em seus cinco episódios de uma hora cada, a história de um campeonato clandestino de vale-tudo criado por Jorge Pereira (Murilo Rosa), ex-lutador e romântico da briga de rua, que quer resgatar a época em que se brigava de verdade, sem regras ou luvas. Violenta, a competição rende apostas em dinheiro, com lutadores do país dentro e fora dos ringues, na esperança de conquistar uma vida melhor.

O que te motivou a escrever uma série sobre a história das lutas clandestinas na Grande SP?

Os livros de roteiro dizem: “Escreva sobre o que você conhece.” Se eu fosse escrever apenas sobre o que conheço, meus roteiros não passariam da página dois. Talvez um conselho melhor seja: escreva sobre o que você quer conhecer. Foi o que eu fiz no caso do Rio Heroes. Eu nunca briguei, nunca tinha visto uma luta de MMA. Mas conhecia um campeão de vale-tudo, um cara generoso, divertido, inteligente, que, com um bebê no colo, contava histórias como a do dia em que ele bateu em um ônibus (entrou no ônibus e bateu em todo mundo). E fiquei com vontade de escrever histórias que misturassem violência com lealdade, brutalidade com sentimentos nobres, e falar de personagens ambíguos como os personagens que a gente vê no Poderoso Chefão ou no Sopranos. Mas seria ridículo fazer uma série brasileira sobre máfia italiana, e eu queria que a série retratasse alguma coisa própria do Brasil. Então, vale-tudo. 

Em quanto tempo você escreveu e realizou a série?

A série demorou entre três e quatro meses para ser escrita (a primeira temporada tem cinco episódios). Depois teve quatro semanas de pré-produção, cinco semanas de filmagem e três meses de pós.

Quais os maiores desafios que enfrentou para realização?

A pior coisa que pode acontecer quando você está fazendo uma série é cada pessoa envolvida querer uma coisa diferente. Se cada pessoa remar para um lado, a série não vai a lugar nenhum. Todo mundo precisa remar em direção a um mesmo lugar, mas chegar a um consenso nem sempre é fácil e é preciso uma coisa que muitos escritores não estão acostumados a ter: habilidade social e política. É possível escrever um romance maravilhoso sem sair do quarto e sem falar com ninguém. Mas é impossível fazer uma série desse jeito. É preciso enfrentar o desafio de sair do quarto.  

Quantos roteiristas participaram do projeto?  E como foi a sala de roteiro?

A série foi criada por mim, pela Camila Raffanti e pelo Alexandre Soares Silva, a partir de uma ideia minha. A gente criou o arco da temporada e as sinopses dos episódios, e escreveu a seis mãos o piloto. Então chamamos a Daniela Garuti para nos ajudar no desenvolvimento das escaletas. Quando as escaletas ficaram prontas, a Daniela e o Alexandre saíram para escrever um roteiro enquanto eu e a Camila escrevíamos outro. Depois eu, a Camila e o Alexandre nos juntamos de novo para escrever os últimos roteiros.

Qual foi seu envolvimento durante a produção da série?

Participei um pouco da pré-produção, escolhendo ou aprovando parte do elenco e das locações. Mas, por conta de outras séries que eu estava desenvolvendo, não pude, infelizmente, acompanhar as filmagens. Mas depois fui para ilha de edição e fiz o corte final com o produtor e o editor.

Você cogitou ser uma espécie de showrunner da série?

Sim, era o que eu queria, mas infelizmente não foi possível. Não escrevo roteiro só para ser lido, assim como não escrevo para ser mal executado. Meu interesse é no produto final. O roteiro vai paro lixo, nunca mais ninguém lê. O que fica é a coisa filmada. É ela, e só ela, que importa. Posto isso, quero dizer que nunca almejo o controle absoluto do processo todo. Não gostaria de trabalhar assim. Gosto de trabalhar em conjunto com outras pessoas, tanto é que há vários anos só escrevo a quatro ou a seis mãos, com a Camila e o Alexandre. Mas, se não quero controle absoluto, também não quero controle nenhum. Na série O Negócio, dividi a função de showrunner com o diretor e produtor Michel Tikhomiroff. Foi uma parceria incrível. 

Acha que este modelo é viável no Brasil?

Sim, é viável. É viável e necessário, se a gente quiser fazer mais séries relevantes, que façam sucesso tanto do ponto de vista artístico quanto do ponto de vista comercial. Pensa comigo: uma temporada de dez episódios de uma série de uma hora tem seiscentas páginas de roteiro. Se cada episódio tem quatro histórias, são quarenta histórias em seiscentas páginas. É muita coisa. Você passa meses e meses desenvolvendo e escrevendo isso. No processo todo, você é a única pessoa que sabe os roteiros de cor, a única pessoa que sabe o motivo exato de cada cena, a única pessoa que sabe a intenção de cada fala. Qual o sentido de tirar o controle da série da mão da pessoa que teve a ideia, que desenvolveu e escreveu tudo, que passou meses, às vezes anos, fazendo isso, e dar o controle para um diretor que acabou de entrar no projeto e vai ter que filmar tudo fora de ordem cronológica em um prazo que geralmente é apertado? Artística e comercialmente, é uma decisão arriscada. Os americanos sabem disso e por isso nas séries que eles fazem o roteirista-chefe SEMPRE é um dos showrunners. Pode pegar qualquer série: Seinfeld, Friends, Sopranos, Game of Thrones, The Walking Dead. O roteirista-chefe sempre é showrunner.

Como você vê o mercado de streaming no Brasil, a chegada de novos players e o gosto do brasileiro por séries?

O mercado está crescendo, assim como o gosto do brasileiro por séries. O que o romance foi para o século XIX e o cinema foi para o século XX, a série é para o século XXI. É a forma de arte mais popular.

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