Por Melina Guterres – Jornalista e roteirista associada da Abra

O cotidiano do Recôncavo da Bahia é tema do filme Café com Canela, primeiro longa-metragem dirigido em parceria por Ary Rosa e Glenda Nicácio, recentemente premiado no Festival de Brasília por melhor roteiro e melhor filme pelo júri popular.

Ary Rosa e Glenda Nicácio formaram-se em cinema pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e fundaram a produtora independente Rosza Filmes, em Cachoeira. Ary assina roteiro e divide a direção com Glenda.

O filme se passa em Cachoeira e São Félix e trata da solidariedade feminina através do reencontro de duas mulheres, Margarida (Valdinéia Soriano) e Violeta (Aline Brunne), que se ajudam em momentos difíceis da vida de uma e outra.

Conversamos com Ary, que assina também a direção com Glenda, “Companheira de set e de vida”.

“Falar sobre encontros e afetos é algo que sempre me interessou (enquanto espectador), e poder escrever algo tão universal como é o encontro e o afeto trazendo pro Recôncavo da Bahia como particular e único, é um grande prazer.”, diz Ary Rosa.

Sobre o desenvolvimento do roteiro do filme, confira a entrevista:

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  • MG: Como surgiu a ideia de fazer este filme?

Parte do cotidiano do Recôncavo da Bahia, lugar que vivo há oito anos. O Recôncavo é um lugar onde a cultura pulsa nos seus sambas de roda, na sua capoeira, festas; no seu modo de falar, de andar, de viver… O Recôncavo está em sua ancestralidade: suas dores e seu modo de reinventar a dor (felicidade). Uma inspiração continua e cotidiana. Cotidiano pode ser uma palavra que repita algumas vezes nessa entrevista, pois é isso que tentei captar ao escrever esse roteiro, que é muito regional, mas não deixa de ser universal (“canta tua aldeia…”). Falar sobre encontros e afetos é algo que sempre me interessou (enquanto expectador), e poder escrever algo tão universal como é o encontro e o afeto trazendo pro Recôncavo da Bahia como particular e único, é um grande prazer.

  •  MG: A construção da relação com o luto foi inspirada em algo?

Luto é uma questão importante para o filme. A morte é sempre algo essencial  para a construção de cada personagem. Mas, é como eles lidam com o luto que fazem deles únicos dentro da história. Antes de ser um filme que fala de morte, é um filme de como as pessoas lidam com ela (e suas vidas antes e depois). Conviver com a morte é tão cotidiano a todos que nem acredito que seja uma inspiração, mas uma condição de cada personagem.

  • MG: Em quanto tempo elaborou o roteiro? Houve pesquisa?

O roteiro nasceu de um curta-metragem que escrevi. Uma grande amiga, Angelita Bogado, leu e indicou: “isso é um longa”. Acreditei e escrevi. Só em 2013 ele foi finalizado. As pesquisas sempre foram sobre o Recôncavo, sua gente, sua cultura, seu modo de falar, de viver.

  • MG: O que veio primeiro, argumento ou escaleta?

Primeiro veio o curta (enquanto roteiro – indicado pra virar longa metragem). Cada processo é um, no caso do “Café” não teve escaleta e o argumento foi escrito depois do roteiro (por exigência de editais).

  • MG: Quantos tratamentos e qual a maior evolução de um pra outro?

Depois que se transformou em longa, teve tratamento para cada leitor. No processo fui passando para pessoas lerem e fui trabalhando a cada leitura (e sugestões). Acredito que foram uns cinco tratamentos, ao menos.

  • MG: Algum personagem mais difícil pra dialogar? 

Por incrível que pareça foi Shirley, uma personagem secundária que surge no meio da história numa mesa de bar com Paulo (marido de Margarida) e alguns amigos. Uma mulher completamente fora do contexto feminino que tinha sido apresentado até ali. E não é qualquer mulher, é uma representatividade que precisava ser respeitada. Ela destoa, e por era preciso ter muito cuidado pra não levar pra lugares indevidos.

  • MG: O que você queria transmitir ao público?

Afeto. Um filme afetuoso, e parece que tem atingido isso. As pessoas ficam muito tocadas pelo poder do encontro, do carinho, da troca.

  • MG: Como foi escrever e dirigir? E a parceria em dividir a direção?

São processos distintos. Quando Glenda e eu assumimos a direção, o roteirista morreu e nos dedicamos ao ofício de dirigir. Glenda sempre entendeu o roteiro, por isso dirigimos juntos. Foi bem simples e prazeroso.

  • MG: Quais são suas influências no cinema?

Muitas… seria até estranho elencar. Para esse filme, a maior influência foi o Recôncavo.

  • MG: Em um diálogo das personagens, ela expressa o amor ao cinema. É uma visão pessoal? O que é cinema para você?

É também uma visão minha, mas é para causar efeito. E funcionou! Tem gente que ama, tem gente que odeia. É descontextualizado e essencial.

  • MG: Como vê a questão racial no cinema?

O cinema trabalha com representatividade, e acredito que os negros ainda não estão suficientemente representados nas telas.

  • MG: Como foi ganhar o Festival de Brasília?

Fiquei feliz. Mas o roteiro só existe na escolha de diretores, na fala e no gesto de uma atriz, na movimentação de uma câmera, no som bem colocado e na arte dizendo o que o roteiro nem sonhou em dizer. É um prêmio coletivo. Todos ficaram felizes!

  • MG: Quais os próximos planos?

Estamos gravando nosso segundo longa metragem: “Ilha”. Sigo sendo roteirista desse filme e compartilhando a direção com Glenda Nicácio (minha grande parceira de set e de vida). O filme é denso, afinal estamos vivenciando tempos difíceis, e nesse sentido, o cinema faz-se espelho. O filme conta a história de um menino que sequestra um diretor de cinema para que este o ajude a filmar a história miserável de sua vida. O projeto foi viabilizado através do Fundo de Cultura do Estado da Bahia junto aos Arranjos Regionais (ANCINE e FSA) e encontra-se em fase de filmagem. A equipe é pequena e composta em sua maioria pelos profissionais que participaram de “Café com Canela” – o que vem possibilitando maior entrosamento durante o processo de produção.

Fan Page do filme: https://www.facebook.com/cafecomcanela2015/

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Melina Guterres é proprietária e editora do site Rede Sina. Como repórter, é frila da Folha de São Paulo. Já trabalhou também para Estadão, UOL, etc. Como roteirista teve argumento de longa-metragem contemplado no Programa Ibermedia, tem série de ficção infanto-juvenil concorrendo em editais, escreveu e dirigiu curtas de ficção e documentário. Foi Jurada do Rota Festival de Roteiros do Rio de Janeiro e I Festival de Cinema Estudantil – CINEST em Santa Maria-RS. Foi sócia-proprietária da Essence Comunicação – assessoria e marketing.  Em 2017 iniciou curso de interpretação para cinema no Studio Fátima Toledo, assistiu disciplinas sobre questões de gênero na pós-graduação da comunicação e teatro da USP.  É gaúcha de Santa Maria, já morou na Bahia, Pará, Rio e SP. Também é poetisa, blogueira, ativista social, feminista com orgulho e no momento pesquisa sobre assédio para elaboração de novo projeto.  Mais sobre a Melina em: www.melinaguterres.com e https://www.facebook.com/meguterres

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Juliana é codiretora de comunicação e editora de conteúdo do site da ABRA. "Originalmente jornalista, fui para França em 1989, onde acabei vivendo por 17 anos. Sem ter me tornado propriamente cartesiana, tornei-me mãe, cidadã francesa e professora, obtive mestrado em cinema e alta (mente duvidosa!) do psicanalista, dirigi 5 curtas, dos quais fui também roteirista, além de vídeos institucionais para a UNESCO e SOS Racisme. Recebi prêmio pela adaptação de Cronopios y Famas, de Julio Cortazar, e subvenções do CNC, Kodak e de Conselhos Regionais da França. No Brasil, desde 2005, escrevo projetos de ficção para João Jardim (A Vida de Julia) e Murilo Salles (O Fim e os meios, selecionado pelos editais Petrobras 2007 e OI Futuro 2008; Prêmio de melhor roteiro do Festival do Rio 2014). Me divido entre o desenvolvimento de roteiros para outros diretores - como Henrique Saladini, Themba Sibeko (SulAfrica) e Kim Chapiron (França) -, além de meus projetos pessoais. Membro do Colégio de Leitores do CNC desde 2001 e da Autores de Cinema desde 2006. Professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná; coordenadora da Oficina Escrevendo & Filmes, em parceria com Tempo Glauber. Traduzi La Dramaturgie, de Yves Lavandier, para o português, corro quando aguento e quando não aguento recomponho em mosaicos os cacos da louça que, quase sempre sem querer, quebrei. DISPAROS, meu primeiro longa-metragem como diretora, estreou no Brasil em 2012 e participou da seleção oficial do Festival do Rio, batendo o record de prêmios naquele ano (melhor Fotografia, Montagem e ator coadjuvante pelo genial antagonista composto por Caco Ciocler). Atualmente, estou envolvida com o desenvolvimento de projetos de séries TV, coescrevendo com o frances Michel Fessler, os americanos Jeremy Pikser e Walter Bernstein (Hi & Lo Investigations), ou em solo (EXEMPLUM - o julgamento do Dr. Antônio), este último da safra 2016 do Núcleo Criativo da Urca Filmes. No cinema: RESIDENTAS en el camino, minha "menina dos olhos". Um filme de estrada e de jornada, uma investigação sobre as mulheres que, em pleno século XIX, participaram da Guerra da Tríplice Aliança (aka Guerra do Paraguai), assim como uma busca da mulher que a jovem youtuber ELISA quer, em pleno terceiro milênio, se tornar. E, para concluir, #FORATEMER "

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