Entre a poeira dramática e o filme de gênero.

Vida de roteirista, por Juliana Reis

Há algumas semanas, participei com os companheiros de ABRA Jorge Duran (homenageado especial) e Yoya Wursch de um seminário na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, parte da programação do ROTA – Festival do Roteiro Audiovisual, criação dos alunos e que coincidiu, em 2017, com o 15o aniversário de criação da ECDR. Pequeno parêntese aqui pra celebrar a bio-batalha de Irene Ferraz, verdadeira “guerrilheira” do cinema brasileiro. (https://oglobo.globo.com/rio/encontros-de-domingo-musa-que-virou-diretora-de-escola-de-cinema-12311465)

O tema do seminário e debate já dizia muito e pra bom piadista “O lugar do roteirista” oferecia motes de montão: “na cama!”, disse de cara Yoya; “é lá que eu gosto de escrever”. Duran contra-atacou com aquele seu sotaque charmoso “o lugar de roteirista é na cadeira, pô!”. Lembrei então de uma intromissão do Duran na minha aula, na Darcy mesmo, lá pelos idos de 2007, e mandei a minha linha: “cadeira, não; poltrona. Lugar de roteirista é na poltrona do espectador!”

Nesse momento, já estavam nos chamando pra sentar no palco e nossas falas foram partindo dai…

Nos meus 20 minutos, escolhi bater na minha tecla favorita e abordar, não o lugar do roteirista, mas o do roteiro propriamente dito. E citei logo de cara um outro grande professor da Darcy, nosso saudoso José Carlos Avellar, que, diante de uma plateia de iniciados do 1o Encontro de Roteiristas no Centro Cultural da Caixa (2006), ousou declarar que o lugar do roteiro, uma vez o filme pronto, era a cesta de lixo! Rolou um climão, tanto naquela época quanto hoje. Segui tecendo minha recorrente ladainha pretendendo que o lugar do roteiro não se situa nem nas folhas escritas e nem mesmo na tela do filme, e demonstrei por A + B que o roteiro se situa aproximadamente naquele espaço do feixe poeirento e esfumaçado que emana da janelinha da sala do projecionista e vai se ampliando até derramar sua luz retangular na tela do cinema — na verdade, emanava, em tempos pre-digitais. Hoje fica mais difícil ser poético na matéria–

… Porque é nesse lugar, de ligação entre a construção do filme e os sentidos do espectador, que o verdadeiro roteiro acontece…

To sempre repetindo: Shakespeare não escreveu em nenhum lugar o desespero que é saber que Julieta não está morta (“ela tá só fingindo!”, temos vontade de gritar) e saber que Romeu não o sabe… “Isso” não está nem escrito e nem mesmo filmado.

“Isso” é roteiro: a capacidade de engendrar uma percepção específica ligada aos fatos que relatamos, percepção esta, resultado de nossa eleição e agenciamento, que ocorre dentro na cabeça e do coração (e por que não dizer, na flor da pele) do espectador.

Taí o lugar o roteiro. A verdade é que eu me empolgo muito com tal ideia.

Só que, de repente, chega um novo personagem na nossa cena: Rodrigo Fonseca. Não sei se seria correto introduzi-lo como ex-crítico de cinema convertido pro roteirismo. Eu o encontrava cara a cara pela primeira vez, e não sem alguma apreensão de autor que se recusa a seguir ditames ou … agradar a crítica. Mas uma coisa me saltou aos olhos desconfiados e me faz morder meu próprio dedo: o cara é um apaixonado pelos filmes que devora e que regurgita entre contexto e análise pra plateia por ele completamente capturada (aliás, também de ex-alunos seus). E eu junta, capturada.

Me permito reportar aqui a sua fala (correndo o risco que minhas memória e interpretação me fazem correr), que girou em torno de outra vertente clássica do pensamento cinematográfico brasileiro. Pra ajustar ao nosso leitmotiv, eu diria que na tese de Rodrigo, o lugar do roteiro era o de “problema do cinema nacional”*. E ele se dedicou a uma inspirada defesa do cinema de gênero, como a grande opção de interlocução com o espectador que a nossa ‘nata da nata’, a partir do fim dos anos 70, teria conscientemente decidido assassinar. Ele fez isso inclusive com uma emocionante crítica ao papel da crítica nesse assassinato (nessa hora, eu me rendo ao charme daqueles olhões estranhamente verdes e rodeados de cílios inverossímeis!). Rodrigo condenava nosso cinema a ser punido por seu esnobismo em se recusar a ser fabuloso (no sentido da fábula) e pela obstinação estéril num realismo desprovido de aderência ou com uma inútil pretensão à verdade absoluta.

Ainda tentei rebater com uma outra reflexão: Afinal Dona Flor e seus dois maridos, Mulher Invisível ou todos os Se eu fosse você, são filmes que extrapolaram o realismo e optaram por premissas alguns degraus acima…

… E se, juntando os dois pontos… E se devêssemos nos preocupar mais em permitir em nossas obras espaço para ser ocupado de fato e de direito pelo espectador, permitindo a ele a causalidade, o aristotelismo, o concluir autônomo que o faz melhor compreender o mundo e os seres humanos a sua volta…? E se nossos roteiros falassem demais, contassem tudo tintim por tintim e não permitissem ao espectador ocupar seu lugar de compreendedor do que está sendo contado…?

Desde o dia do seminário não paro de pensar nisso.

Mais uma ocasião que ser professora me deu de aprender.

Rodrigo Fonseca, a que escreve, Jorge Duran e os organizadores do ROTA Gabriela Liuzzi, Evandro Melo e Carla Perozzo.

PS: *faltou dizer o óbvio: a solução do cinema nacional também é o roteiro.

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A série VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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Juliana é codiretora de comunicação e editora de conteúdo do site da ABRA. "Originalmente jornalista, fui para França em 1989, onde acabei vivendo por 17 anos. Sem ter me tornado propriamente cartesiana, tornei-me mãe, cidadã francesa e professora, obtive mestrado em cinema e alta (mente duvidosa!) do psicanalista, dirigi 5 curtas, dos quais fui também roteirista, além de vídeos institucionais para a UNESCO e SOS Racisme. Recebi prêmio pela adaptação de Cronopios y Famas, de Julio Cortazar, e subvenções do CNC, Kodak e de Conselhos Regionais da França. No Brasil, desde 2005, escrevo projetos de ficção para João Jardim (A Vida de Julia) e Murilo Salles (O Fim e os meios, selecionado pelos editais Petrobras 2007 e OI Futuro 2008; Prêmio de melhor roteiro do Festival do Rio 2014). Me divido entre o desenvolvimento de roteiros para outros diretores - como Henrique Saladini, Themba Sibeko (SulAfrica) e Kim Chapiron (França) -, além de meus projetos pessoais. Membro do Colégio de Leitores do CNC desde 2001 e da Autores de Cinema desde 2006. Professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná; coordenadora da Oficina Escrevendo & Filmes, em parceria com Tempo Glauber. Traduzi La Dramaturgie, de Yves Lavandier, para o português, corro quando aguento e quando não aguento recomponho em mosaicos os cacos da louça que, quase sempre sem querer, quebrei. DISPAROS, meu primeiro longa-metragem como diretora, estreou no Brasil em 2012 e participou da seleção oficial do Festival do Rio, batendo o record de prêmios naquele ano (melhor Fotografia, Montagem e ator coadjuvante pelo genial antagonista composto por Caco Ciocler). Atualmente, estou envolvida com o desenvolvimento de projetos de séries TV, coescrevendo com o frances Michel Fessler, os americanos Jeremy Pikser e Walter Bernstein (Hi & Lo Investigations), ou em solo (EXEMPLUM - o julgamento do Dr. Antônio), este último da safra 2016 do Núcleo Criativo da Urca Filmes. No cinema: RESIDENTAS en el camino, minha "menina dos olhos". Um filme de estrada e de jornada, uma investigação sobre as mulheres que, em pleno século XIX, participaram da Guerra da Tríplice Aliança (aka Guerra do Paraguai), assim como uma busca da mulher que a jovem youtuber ELISA quer, em pleno terceiro milênio, se tornar. E, para concluir, #FORATEMER "

2 Comentários

  1. Olá Juliana! Tudo bem?

    Gostei das experiências que você compartilha no texto. Esperava uma análise mais voltada para a chamada do título, algo mais detalhado sobre essa perspectiva do problema do cinema nacional ser o roteiro… Nesse ponto, tenho uma questão sobre a pergunta: “E se nossos roteiros falassem demais, contassem tudo tintim por tintim e não permitissem ao espectador ocupar seu lugar de compreendedor do que está sendo contado…?”. Será que essa tendência a deixar as coisas explícitas demais não é algo que vem da referência de roteiro das telenovelas?

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