Por Carlos Alberto Ratton

O filme “Joaquim” do diretor pernambucano Marcelo Gomes que estreou este mês, ficou apenas uma semana em cartaz em um cinema do shopping Pátio. Uns dizem que isso acontece por falta de público. Outros afirmam que esta é a real trajetória dos filmes brasileiros sem galãs de novela  nos tais Cinemarks feitos de pipoca e refrigerante.

Hoje, “Joaquim” está em cartaz em duas sessões no Belas Artes. O filme narra com competência e originalidade a trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no tempo em que ele batalhava para “subir na vida” seja como militar e esforçado agente da Coroa na função de prender contrabandistas de ouro, seja como garimpeiro na cata de riqueza ou como dentista.

atores Julio Machado, Isabél Zuaa e Welket Bungué, com o roteirista e diretor Marcelo Gomes no photocall do último Festival de Berlin, quando JOAQUIM concorreu ao Urso de Ouro de melhor filme  / AFP PHOTO / Tobias SCHWARZ

Ao mesmo tempo,  mostra  a formação de uma nova e bárbara sociedade constituída por brancos, índios e escravos. O filme conta, também, os primeiros passos de Joaquim na caminhada para participar da  Inconfidência Mineira. E, principalmente, fala de uma herança de injustiças e desigualdade social que herdamos de nossos tempos coloniais e que persistem até hoje.

Por tudo isso, eu fico pensando no desinteresse do público com o filme. Será que não temos interesse pela história do Brasil e pela história de Minas?  Infeliz é o povo que precisa de heróis, afirma o dramaturgo Bertold Brecht. Na verdade e no caso, não interessa se o protagonista do filme é uma figura usada pela república velha e “iconizado”, com uma longa cabeleira e vasta barba, como nosso primeiro e heróico mártir da independência. O filme não se preocupa em mostrar um herói, e sim um homem comum, com suas ilusões, amores, aventuras e desventuras que, um dia, toma consciência do tempo injusto em que vive.

Cenas do filme Joaquim

A renomada historiadora Laura de Melo e Souza é a consultora do filme e, na certa, apontou o rumo na Minas colonial de uma  sociedade opulenta e ao mesmo tempo miserável formada, principalmente, pelos desqualificados do ouro.

“Joaquim”, por escolha do diretor,  foi rodado nos arredores de Diamantina e não em Ouro Preto, sem perder nada da locação de um mundo agreste e primitivo. Em outros tempos, o filme seria debatido, discutido e criticado na imprensa, na universidade, nas escolas, nos centros de estudo de história e mesmo de cinema.

Nossos historiadores, tão competentes na escrita e reflexão da história do Brasil e da história da Inconfidência, não se manifestaram. Ou talvez tenham feito isso e eu, mal informado que sou, não tomei conhecimento.  Tenho certeza que, se um grande debate tivesse acontecido, o filme não passaria em branco em uma tela escura na terra daquele homem ensandecido do desejo de liberdade. E o tal Joaquim não sairia das Minas Gerais sem receber a condecoração tão cara aos mineiros que é a medalha da Inconfidência do reconhecimento público.

 
Carlos Alberto Ratton é autor de roteiros de longas e séries, além de duas
novelas, produzidos no Brasil e em Portugal. Vencedor do Molière com
a peça "Dorotéia Vai À Guerra".

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A série VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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Juliana é codiretora de comunicação e editora de conteúdo do site da ABRA. "Originalmente jornalista, fui para França em 1989, onde acabei vivendo por 17 anos. Sem ter me tornado propriamente cartesiana, tornei-me mãe, cidadã francesa e professora, obtive mestrado em cinema e alta (mente duvidosa!) do psicanalista, dirigi 5 curtas, dos quais fui também roteirista, além de vídeos institucionais para a UNESCO e SOS Racisme. Recebi prêmio pela adaptação de Cronopios y Famas, de Julio Cortazar, e subvenções do CNC, Kodak e de Conselhos Regionais da França. No Brasil, desde 2005, escrevo projetos de ficção para João Jardim (A Vida de Julia) e Murilo Salles (O Fim e os meios, selecionado pelos editais Petrobras 2007 e OI Futuro 2008; Prêmio de melhor roteiro do Festival do Rio 2014). Me divido entre o desenvolvimento de roteiros para outros diretores - como Henrique Saladini, Themba Sibeko (SulAfrica) e Kim Chapiron (França) -, além de meus projetos pessoais. Membro do Colégio de Leitores do CNC desde 2001 e da Autores de Cinema desde 2006. Professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná; coordenadora da Oficina Escrevendo & Filmes, em parceria com Tempo Glauber. Traduzi La Dramaturgie, de Yves Lavandier, para o português, corro quando aguento e quando não aguento recomponho em mosaicos os cacos da louça que, quase sempre sem querer, quebrei. DISPAROS, meu primeiro longa-metragem como diretora, estreou no Brasil em 2012 e participou da seleção oficial do Festival do Rio, batendo o record de prêmios naquele ano (melhor Fotografia, Montagem e ator coadjuvante pelo genial antagonista composto por Caco Ciocler). Atualmente, estou envolvida com o desenvolvimento de projetos de séries TV, coescrevendo com o frances Michel Fessler, os americanos Jeremy Pikser e Walter Bernstein (Hi & Lo Investigations), ou em solo (EXEMPLUM - o julgamento do Dr. Antônio), este último da safra 2016 do Núcleo Criativo da Urca Filmes. No cinema: RESIDENTAS en el camino, minha "menina dos olhos". Um filme de estrada e de jornada, uma investigação sobre as mulheres que, em pleno século XIX, participaram da Guerra da Tríplice Aliança (aka Guerra do Paraguai), assim como uma busca da mulher que a jovem youtuber ELISA quer, em pleno terceiro milênio, se tornar. E, para concluir, #FORATEMER "

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