por José Vitor Rack e Matheus Colen

O carioca Mauricio Stycer é referência em termos de crítica televisiva hoje no país. Este botafoguense orgulhoso da boa fase de seu time nasceu no Rio de Janeiro em 1961, mas vive em São Paulo há 27 anos. Formado em Comunicação pela PUC-RJ e em Economia pela UFRJ, durante muito tempo Maurício não tinha o mundo da TV como uma de suas prioridades profissionais.

Com passagens marcantes pelo Jornal do Brasil, Estadão e Folha de SP, foi correspondente internacional e tratou de temas diversos. Trabalhou no Glamurama e no portal iG. Maluco por futebol, escreveu livros sobre o tema e fez parte da equipe criadora do jornal esportivo Lance!. Aliás, seu mestrado em Sociologia foi feito em cima de sua experiência no jornalismo esportivo. Também ajudou a colocar em pé a redação da revista Época, além de ser redator-chefe da Carta Capital. É ainda professor de jornalismo, acadêmico e doutorando.

O tempo e as circunstâncias o encaminharam para uma especialização no universo da televisão. Hoje ele comanda um blog do UOL que é um dos mais lidos e compartilhados nas redes sociais. Faz crítica com conteúdo e embasamento, não baseada apenas no achismo e em laços sociais. Neste blog ele também tem publicado vídeos de entrevistas gravadas com personalidades da área de comprovada excelência, tais como Matheus Nachtergaele e Marco Nanini.

Quem o segue nas redes sociais percebe que se trata de um trabalho espinhoso. Não é incomum Maurício relatar que os comentários a seus textos mostram uma profunda incompreensão da parte dos leitores a respeito do que é o trabalho do crítico. Muitos acham que ele defende a emissora X e ataca a Y. Outros imaginam o exato contrário. Muitos dos dois lados o acusar de estar “comprado” para dar determinada opinião.

Ano passado ele lançou “Adeus, Controle Remoto – Uma Crônica do Fim da TV Como a Conhecemos”. Em seu primeiro livro sobre TV, ele reuniu textos diversos que tentam traçar um panorama sobre o futuro deste veículo tão querido pelos brasileiros. O site da ABRA procurou Maurício para que falasse sobre TV e, mais especificamente, sobre o texto na TV e sua relação com a crítica. Cordial e extremamente simpático, Maurício deu a entrevista via chat do Facebook com um claro aviso de que não responderia a perguntas para as quais a sua resposta fosse necessariamente baseada no chute ou no palpite.

Ao contrário de nos desagradar, este alerta nos deu certeza de que estávamos dialogando com um profissional que encara seu ofício com a mesma seriedade com que a esmagadora maioria dos autores roteiristas encara a missão de escrever. Um bom ponto de partida para o diálogo.

  • Como você vê o atual momento do mercado audiovisual brasileiro? 

Não tenho condições nem conhecimento para responder a esta pergunta. Nos últimos nove anos tenho focado o meu interesse e atuação profissional no mercado de televisão. Sobre este, posso falar algumas coisas. É um momento muito rico, de grandes transformações. Cito três aspectos. As mudanças na legislação da TV paga deram um estímulo à produção de conteúdo nacional. A revolução digital ampliou muito as possibilidades de consumo audiovisual. A Globo, líder do mercado de TV aberta, se reorganizou para manter a sua posição de principal produtora de conteúdo. Tudo isso somado e em movimento está tendo impacto nítido sobre o volume de produção – qualidade é outra coisa.

  • O que você acha da qualidade da produção independente brasileira, levando em conta tanto o cinema quanto a televisão paga e aberta?

Vamos pular a cena cinematográfica, pelos motivos já expostos. Acho a produção independente para a TV paga, na área de ficção, ainda muito conservadora. Por ser um mercado de nichos, a TV paga deveria permitir muito mais ousadia e experimentação. Os produtores argumentam que os orçamentos são apertados. Pode ser. Mas o fato é que o resultado, até o momento, me parece muito frustrante. Tenho visto mais ousadia em produções para a TV aberta, o que me parece um contrassenso. Já era para ter “nascido” a grande série brasileira, o “Sopranos”, o “Breaking Bad”, o “Mad Men” brasileiro, mas até agora nada. Mesmo as produções brasileiras para a HBO, um canal que é sinônimo de ousadia e experimentação, padecem desta timidez. São séries com ótimo padrão de produção, mas sem coragem de surpreender. Cito como exceção positiva recente a segunda temporada de “Magnífica 70” (Conspiração). Também gosto bastante de “Zé do Caixão”, exibida pelo canal Space. Na TV aberta, cito quatro experiências recentes bem interessantes, por motivos diferentes. A primeira é “Os Experientes” (O2), que a Globo exibiu em 2015 depois de guardar os episódios na gaveta por mais de um ano. Apenas quatro episódios, exibidos em horário tardio. Precisou ser indicado ao Emmy Internacional para a emissora se dar conta de que tinha um ótimo produto em mãos – e encomendar uma segunda temporada (ainda sendo escrita, até onde eu sei).  “Terminadores” (Hungry Man), exibida em 2016, também se mostrou uma série bem ousada para os padrões da TV aberta, mas a Band, tal como a Globo no caso de “Os Experientes”, não demonstrou maior entusiasmo pelo produto, que foi exibido sem maior alarde e em horário ruim. Já “A Garota da Moto” (Mixer), também de 2016, é uma série até primária, mas foi pensada para atender um nicho específico e cumpriu o seu objetivo. E, diferentemente da Band e da Globo, o SBT pareceu abraçar o projeto com mais gosto, se envolvendo mais na criação e na promoção. Por fim, gostaria de destacar “Sob Pressão”, que me parece inaugurar um novo tipo de parceria da Globo com produtoras independentes. O projeto é da Conspiração, a direção é de dois sócios da produtora (Andrucha Waddington e Mini Kerti), mas o roteiro foi desenvolvido dentro da Globo, por uma equipe comandada por Jorge Furtado. Pelo que vi até agora, é uma das grandes séries do ano.

  • Se conteúdo é rei, roteirista é o quê?

Para ficar no tema médico, o roteirista é a aorta do rei.

  • Qual sua opinião sobre a regulação do mercado de VoD proposta pela ANCINE?

Sem entrar em detalhes da proposta, concordo em termos gerais que este é um mercado que deve ter uma regulação específica, incluindo tributação. Sobre exigência de produção de conteúdo nacional, não tenho opinião formada ainda.

  • Como você avalia a demanda do público por conteúdo audiovisual hoje no Brasil? Há espaço para gêneros e assuntos mais específicos ou as produções nacionais mais lucrativas ainda vão navegar por mais tempo entre os filões da comédia no cinema e do melodrama na TV?

Não tenho dados suficientes para dar uma resposta que fuja do achismo. Neste terreno, o do achismo, repito um comentário que faço especificamente dirigido ao mercado de TV: acho triste ver diretores, produtores e autores rebaixando o nível de suas produções em nome do gosto ou do interesse do público. Esta é uma operação que, quase sempre, envolve subestimar a inteligência e capacidade do espectador.

  • Há espaço para novos autores e diretores no Brasil?

Claro!!! Mas é preciso, de fato, dar espaço e não tutelar os novos autores. Vejo com preocupação algumas novelas escritas por novos autores da Globo que são, essencialmente, velhas. É o caso, por exemplo, de “Os Dias Eram Assim”. É difícil acreditar que seja obra de estreantes.

  • Quais são os pontos principais que um crítico de TV costuma observar nas obras?

No caso da TV aberta, cujo alcance nacional nunca deve ser esquecido, eu resumiria da seguinte forma: entender as intenções, avaliar os resultados, enxergar os méritos, lançar luz sobre os defeitos e conseguir explicar com clareza o que é digno da atenção do espectador.

  • Cada crítico tem sua marca, seu diferencial. O Vanucci tem uma abordagem diferente da sua, que com certeza se difere da Kogut, e assim sucessivamente. Qual a marca do seu trabalho?

Não sei dizer se o meu trabalho tem uma marca específica. Deixo isso para os leitores. O que posso dizer é que mesmo o mais ridículo dos programas precisa ser analisado dentro do seu contexto. É uma questão de honestidade intelectual. Comparar uma novela das 21hs. da Globo com uma série da HBO, por exemplo, pode render um texto com boas tiradas, mas não é boa crítica, na minha opinião.

  • Qual o maior engano e/ou arrependimento que você carrega e que é oriundo de uma crítica sua?

Errar é parte essencial – e necessária – do trabalho do crítico. Quanto mais arrisca, mais chances ele tem de errar. Não tenho vergonha nem arrependimentos de erros cometidos. Entendo-os como parte de um ofício exercido com honestidade.

  • O tripé formado por sucesso de audiência, sucesso de crítica e bom faturamento ainda é o que sustenta um produto televisivo no ar. Ao menos dois destes três fatores devem estar presentes para que um programa tenha sua continuidade assegurada. O crítico olha com mais benevolência para um produto que ele não goste, mas que tenha audiência e faturamento?

Vejo uma especificidade no trabalho do crítico de televisão que escreve na internet. Estou falando de programas de TV aberta, vistos por milhões de pessoas, para um público também muito grande, que é o que consome o noticiário sobre TV em sites e blogs. Por isso, nos casos de programas com boa audiência que não gosto, o grande desafio é conseguir explicar os problemas que enxergo sem ofender o leitor/espectador que é fã da atração.

  • O título do seu último livro é “Adeus Controle Remoto”. A origem deste título é a mudança dos hábitos do telespectador, que está zapeando cada vez menos. No livro ainda há uma seção chamada “O Futuro Ainda Não Começou”. Aproveitando o seu know-how, gostaríamos de ouvir a sua opinião a respeito do que este futuro pode reservar para a teledramaturgia.

Esta seção do livro é dedicada a falar da aposta no atraso, ainda vigente tanto em alguns programas, quanto na própria política que orienta a programação de parte da TV aberta. É a ideia de que parte do público, sem acesso a TV paga nem a banda larga da internet, vai continuar consumindo TV aberta por um longo tempo ainda e, por isso, não é preciso investir em qualidade. Acho que a teledramaturgia, de um modo geral, não se enquadra nesta situação. As novelas brasileiras, ainda que muitas vezes infantis ou repetitivas, não são apelativas nem de mau gosto. O mesmo vale para as séries nacionais. É possível especular, porém, se o espectador submetido a uma programação de mais qualidade, a séries mais densas e elaboradas, não perderia o prazer de ver produções mais básicas. Se isso for verdade, aí sim seria possível falar em um futuro não sem novelas, mas com menos produções deste tipo.

  • Qual o melhor texto que você já viu sendo encenado na TV?

Impossível responder sem cometer muitas injustiças.

  • Qual o maior mito a ser desconstruído que diga respeito ao trabalho do crítico?

O de que qualquer ser humano, pelo simples fato de estar exposto à programação de TV desde a infância, é um crítico de televisão.

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José Vitor Rack é dramaturgo e autor roteirista filiado à ABRA. Paulistano, 35 anos de idade, apaixonado por boa dramaturgia e pela discussão que se forma em torno dela.

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Juliana é codiretora de comunicação e editora de conteúdo do site da ABRA. "Originalmente jornalista, fui para França em 1989, onde acabei vivendo por 17 anos. Sem ter me tornado propriamente cartesiana, tornei-me mãe, cidadã francesa e professora, obtive mestrado em cinema e alta (mente duvidosa!) do psicanalista, dirigi 5 curtas, dos quais fui também roteirista, além de vídeos institucionais para a UNESCO e SOS Racisme. Recebi prêmio pela adaptação de Cronopios y Famas, de Julio Cortazar, e subvenções do CNC, Kodak e de Conselhos Regionais da França. No Brasil, desde 2005, escrevo projetos de ficção para João Jardim (A Vida de Julia) e Murilo Salles (O Fim e os meios, selecionado pelos editais Petrobras 2007 e OI Futuro 2008; Prêmio de melhor roteiro do Festival do Rio 2014). Me divido entre o desenvolvimento de roteiros para outros diretores - como Henrique Saladini, Themba Sibeko (SulAfrica) e Kim Chapiron (França) -, além de meus projetos pessoais. Membro do Colégio de Leitores do CNC desde 2001 e da Autores de Cinema desde 2006. Professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná; coordenadora da Oficina Escrevendo & Filmes, em parceria com Tempo Glauber. Traduzi La Dramaturgie, de Yves Lavandier, para o português, corro quando aguento e quando não aguento recomponho em mosaicos os cacos da louça que, quase sempre sem querer, quebrei. DISPAROS, meu primeiro longa-metragem como diretora, estreou no Brasil em 2012 e participou da seleção oficial do Festival do Rio, batendo o record de prêmios naquele ano (melhor Fotografia, Montagem e ator coadjuvante pelo genial antagonista composto por Caco Ciocler). Atualmente, estou envolvida com o desenvolvimento de projetos de séries TV, coescrevendo com o frances Michel Fessler, os americanos Jeremy Pikser e Walter Bernstein (Hi & Lo Investigations), ou em solo (EXEMPLUM - o julgamento do Dr. Antônio), este último da safra 2016 do Núcleo Criativo da Urca Filmes. No cinema: RESIDENTAS en el camino, minha "menina dos olhos". Um filme de estrada e de jornada, uma investigação sobre as mulheres que, em pleno século XIX, participaram da Guerra da Tríplice Aliança (aka Guerra do Paraguai), assim como uma busca da mulher que a jovem youtuber ELISA quer, em pleno terceiro milênio, se tornar. E, para concluir, #FORATEMER "

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