Vida do roteirista, por Thiago Fogaça

Histórias são metáforas para vida, portanto não importa se as histórias forem as mais distantes da realidade possíveis, ainda assim seu foco emocional será diretamente ligado a emoções humanas. Não conseguimos escrever histórias sobre alienígenas, peixes, robôs, nem mesmo objetos inanimados sem vir de um ponto de vista humano. É como seres humanos funcionam. É como histórias funcionam.

As vezes nós como escritores estamos tentando descobrir uma verdade sobre nossas próprias vidas ao escrevermos nossos contos. Descobrir a discussão em cima de nossas histórias significa muitas vezes se perder em uma jornada de escrever uma primeira versão.

Lista

Existem várias maneiras de você descobrir o que realmente quer discutir com seu filme. Você pode pegar um valor, tanto positivo quanto negativo (como por exemplo uma emoção, adjetivo, peculiaridade, pecado ou visão de vida) e testar isto através de situações acontecendo com seu personagem, que colocam em evidência o lado positivo e negativo de tal valor.

Seu personagem irá aprender, mudar ou simplesmente aceitar tais valores, e esta experiência será sua história. Você pode também simplesmente fazer uma pergunta em cima deste valor de forma positiva ou negativa e mostrar diferentes respostas e facetas através dos acontecimentos de seu filme.

Mas vou propor um exercício muito mais simples: faça uma lista curta e simples dos seus três maiores medos e três maiores desejos.

Não pense muito. Não filosofe muito. Não elabore muito.

O segredo é chegar na questão maior que envolve seu maior medo e maior desejo. Não perca tempo colocando coisas como baratas e medo de altura, ou home-theaters e cruzeiros pelo Havaí. Pense em coisas como a morte, superação pessoal, família, amigos, amor, doença, decepção, perda pessoal, catástrofe, guerra, fome, pobreza, corrupção e honra.

Outra dica é não tentar ser original e único. Se eu já mencionei um de seus maiores, não se recuse a listá-lo. São os medos e desejos mais comuns que nos tornam humanos.

Talvez você tenha listado mais de 3 medos e desejos. Ou talvez tenha sido mais difícil listá-los do que imaginou. Isto pode ser resolvido abrangendo mais o escopo de um medo em particular. Por exemplo: morte. É a sua morte que lhe aflige? A morte de amigos e entes queridos? Uma morte dolorosa, lenta e agonizante? O que irá (ou não) acontecer após a morte? O que você deixou de fazer em vida? A qualidade do legado que deixou para trás? Apenas um tipo de medo nos dá muitas questões a serem exploradas.

Outro jeito de explorá-los de forma melhor é perceber que um medo ou desejo é o espelho um do outro. Se você quer prover maior segurança e felicidade para a sua família, o contraponto seria que você provavelmente tem muito medo de perdê-los ou desapontá-los.

Conseguiu finalmente preencher sua lista? Aconselho ler o trecho a seguir apenas se já listou seus maiores medos e desejos:

Examine bem. Estão aí as seis maiores razões pelas quais você mais se apaixonou por filmes ou certos tipos de histórias em sua vida. Estão aí também os temas recorrentes em toda história que você já criou ou ainda irá criar.

Claro, a medida que vamos amadurecendo e o tempo vai passando, nossos medos e desejos mudam. Mas também não mudam os nossos gostos?

Provavelmente toda premissa de história que você criou exploram facetas de tais medos e desejos. Um bom filme é aquele que brinca com um medo e/ou desejo de uma maneira muito poderosa e universal. No entanto, sentimos que aquele filme está sendo direcionado especificamente para nós, de uma maneira extremamente pessoal. Pois quanto mais pessoal seus medos e desejos são, mais eles ressoam universalmente.

Se criou um filme com protagonistas insetos, seres de outras dimensões, uma guerra em um mundo mitológico ou mesmo o dia a dia de um mendigo, você está explorando seus medos e desejos mais pessoais? Pois talvez você já esteja fazendo isto sem nem mesmo perceber. Existem milhares de filmes de alienígenas, mas são estas discussões que os diferenciam uns dos outros e discernem os bons dos medíocres. Uma boa discussão não só torna sua história melhor, mas sua paixão e comprometimento ao escrevê-la serão mais fortes, e isto irá ajudá-lo na longa e árdua jornada de terminar seu roteiro.

  • Depois de se formar em Cinema na FAAP, Thiago Fogaça morou em Los Angeles, onde fez Mestrado de Roteiro pela New York Film Academy. Ao retornar ao Brasil, ensinou no MIS, Senac, Cine-Sesc, Escola São Paulo, AIC, Casa do Saber e FAAP. Treinou equipes na FGV e nas agências Young & Rubicam, Leo-Burnett, Talent e no Google, além de ter dado palestras nas faculdades Mackenzie e Rio Branco.

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A série  VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

 

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Juliana é codiretora de comunicação e editora de conteúdo do site da ABRA. "Originalmente jornalista, fui para França em 1989, onde acabei vivendo por 17 anos. Sem ter me tornado propriamente cartesiana, tornei-me mãe, cidadã francesa e professora, obtive mestrado em cinema e alta (mente duvidosa!) do psicanalista, dirigi 5 curtas, dos quais fui também roteirista, além de vídeos institucionais para a UNESCO e SOS Racisme. Recebi prêmio pela adaptação de Cronopios y Famas, de Julio Cortazar, e subvenções do CNC, Kodak e de Conselhos Regionais da França. No Brasil, desde 2005, escrevo projetos de ficção para João Jardim (A Vida de Julia) e Murilo Salles (O Fim e os meios, selecionado pelos editais Petrobras 2007 e OI Futuro 2008; Prêmio de melhor roteiro do Festival do Rio 2014). Me divido entre o desenvolvimento de roteiros para outros diretores - como Henrique Saladini, Themba Sibeko (SulAfrica) e Kim Chapiron (França) -, além de meus projetos pessoais. Membro do Colégio de Leitores do CNC desde 2001 e da Autores de Cinema desde 2006. Professora da Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Faculdade de artes do Paraná; coordenadora da Oficina Escrevendo & Filmes, em parceria com Tempo Glauber. Traduzi La Dramaturgie, de Yves Lavandier, para o português, corro quando aguento e quando não aguento recomponho em mosaicos os cacos da louça que, quase sempre sem querer, quebrei. DISPAROS, meu primeiro longa-metragem como diretora, estreou no Brasil em 2012 e participou da seleção oficial do Festival do Rio, batendo o record de prêmios naquele ano (melhor Fotografia, Montagem e ator coadjuvante pelo genial antagonista composto por Caco Ciocler). Atualmente, estou envolvida com o desenvolvimento de projetos de séries TV, coescrevendo com o frances Michel Fessler, os americanos Jeremy Pikser e Walter Bernstein (Hi & Lo Investigations), ou em solo (EXEMPLUM - o julgamento do Dr. Antônio), este último da safra 2016 do Núcleo Criativo da Urca Filmes. No cinema: RESIDENTAS en el camino, minha "menina dos olhos". Um filme de estrada e de jornada, uma investigação sobre as mulheres que, em pleno século XIX, participaram da Guerra da Tríplice Aliança (aka Guerra do Paraguai), assim como uma busca da mulher que a jovem youtuber ELISA quer, em pleno terceiro milênio, se tornar. E, para concluir, #FORATEMER "

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