por José Vitor Rack

Lauro César Muniz divulgou tempos atrás uma campanha por telenovelas menores, mais enxutas. Falou disso no Provocações, com o nosso saudoso Antônio Abujamra, deu entrevistas a jornais, revistas e blogs falando a respeito.

“As emissoras dizem que o ponto de equilíbrio e lucro de uma novela é o capítulo 100. É possível antecipar isso para o capítulo 60. Pois uma trama mais curta também tem menos personagens, cenografia, locações, diretores. Tentei várias vezes na Globo, mas não consegui. Me falavam: ‘Você para com esse assunto!’. No entanto, estou sentindo uma acolhida agora.”

 “A Globo tem condições de baixar o número de capítulos e sinto que já está baixando. Baixar o número de capítulos é fundamental para melhorar a qualidade das telenovelas. Baixar radicalmente, para 140 capítulos no máximo. Com menos personagens, uma linha central mais definida. Não tem sentido, nos dias de hoje, você ficar com uma novela esticada um ano e fumaça.”

 “Tenho recebido a adesão de vários colegas autores, diretores, atores e atrizes. E até de agentes de publicidade. Sinto que o formato de novelas muito longas tem os dias contados. A tendência é que haja uma diminuição de capítulos nas novelas do futuro. O cinema e o teatro já entenderam que o público jovem de hoje quer dinamismo – o conceito básico produzido pela internet! Ora, a telenovela está na contramão: hoje se faz novelas com mais de 200 capítulos, que se arrastam, sofrendo de dinamismo. 200 capítulos exigem muitos núcleos. Uma história com muitos núcleos paralelos tende a ficar sem foco. A história central fica diluída, sem personagens centrais determinantes. Se a novela não tiver uma linha central bem nítida, o interesse cai, gerando as barrigas que afastam o público. A audiência oscila e só vai retomar os melhores índices ao caminhar para o final.” 

Os-Dez-Mandamentos_novela

Seu colega Manoel Carlos disse coisa parecida nesta entrevista.

“No campo profissional, sonho com as novelas mais curtas em número de capítulos e duração de cada um. O pesadelo é isso não ser possível.”

 Engana-se quem pensa que ambos estejam advogando em causa própria. Muitos poderiam pensar assim, afinal são homens idosos, já sem a energia e o pique que tinham quando começaram sua jornada na televisão. Não é o caso. Os velhinhos citados acima dão banho de juventude e vitalidade em muitos roteiristas trinta ou quarenta anos mais jovens que eles onde isso mais importa para um escritor: na cabeça.

Lauro e Maneco falam o óbvio. E iluminados pela brancura de seus cabelos, enxergam com mais clareza a realidade do país em que vivem e do público que prestigia a TV aberta.

O Brasil é um país que caminhou do rural ao urbano, do autoritarismo à democracia, da juventude à maturidade, do analfabetismo aos bancos universitários. Permanece recheado de mazelas seculares, mas inegavelmente deu um salto nos últimos trinta anos. O país mudou, o público também.

Hoje mais pessoas tem acesso ao consumo. E elas consomem sem cerimônia. Vão mais à rua, comem mais fora, vão mais ao teatro, aos shoppings e cinemas. Assinam mais TV fechada, consomem muito mais internet, games e DVD’s. Tudo isso rouba público da telenovela. Mais gente estuda e chega à universidade. Pra quem trabalha, o único horário possível de se frequentar as aulas é o noturno, mesmo horário em que as novelas estão no ar.

As pessoas se afastam da novela não só por razões práticas como as que citei, mas também por algo que mudou em seu inconsciente. O convívio com a internet dentro de casa habituou as pessoas a conteúdos rápidos, fragmentados, instantâneos. No YouTube vídeos de três minutos divertem as pessoas. Difícil fazer um jovem habituado a isso embarcar numa jornada cansativa de quase um ano sentado em frente à TV.

Há uma sensação generalizada de que não conseguimos fazer tudo que queremos. Falta tempo. Pagamos fortunas por engenhocas tecnológicas que deveriam facilitar nossa vida e continuamos com uma pressa insaciável. Isso é, repito, generalizado. Não conheço ninguém que discorde desta afirmação. A revista Superinteressante publicou reportagem falando disso nestes termos:

“Pressa. Ansiedade. E a sensação de que nunca é possível fazer tudo – além da certeza de que sua vida está passando rápido demais. Essas são as principais consequências de vivermos num mundo em que para tudo vale a regra do quanto mais rápido, melhor. Psiquiatras já discutem a existência de um distúrbio conhecido como doença da pressa, cujos sintomas seriam a alta ansiedade, dificuldade para relaxar e, em casos mais graves, problemas de saúde e de relacionamento”.

Uma pesquisa realizada pela operadora de telefonia móvel TalkTalk, na Inglaterra, indica que o uso da internet torna as pessoas mais impacientes também no universo off-line.

Mais da metade dos entrevistados admitiu que se irrita com mais facilidade do que no passado. Aqueles que cresceram inseridos na era da internet têm menos paciência para esperar do que pessoas mais velhas. Um terço dos entrevistados (33%) com idades entre 18 e 24 anos esperam que as páginas da web carreguem em até 10 segundos, enquanto apenas 10% das pessoas com mais de 65 anos têm essa mesma expectativa. Entre os idosos, 64% não se importam em esperar mais de um minuto para o carregamento de uma página. No geral, no entanto, 70% dos entrevistados confessam que se irritam quando têm de esperar mais de um minuto para visualizar o conteúdo de um site.

Esperar por apenas um minuto já irrita essa geração. Falar de novela pra muitos deles pode parecer um baita anacronismo.

A invenção da web favoreceu o desenvolvimento da internet e o surgimento do que chamamos de “sociedade conectada” mediante todo tipo de links, desde o correio eletrônico até as diferentes redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e mensagens de texto e imagem (WhatsApp, Instagram etc.). A multiplicação das novas telas, agora nômades (computadores portáteis, tablets, smartphones) mudou totalmente as regras do jogo. A aposta do Google é que o vídeo na internet vai pouco a pouco acabar com a televisão. John Farrell, diretor do YouTube na América do Sul, prevê que 75% dos conteúdos audiovisuais serão consumidos via internet em 2020.

“Os próprios televisores também estão desaparecendo. Nos aviões da companhia aérea American Airlines, por exemplo, os passageiros da classe executiva já não dispõem de telas de televisão, nem individuais nem coletivas. Agora, cada passageiro recebe um tablet para que ele mesmo faça seu próprio programa e se instale com o dispositivo da forma como achar melhor (encostado, por exemplo). Na Norvegian Air Shuttle, se vai ainda mais longe. Não existem telas de televisão no avião, nem tampouco entregam tablets, mas o avião tem internet wifi e a empresa parte do princípio que cada passageiro leva uma tela (um computador portátil, ou tablet, ou smartphone) e que basta com que se conecte ao site da Norvegian para ver filmes, séries, programas de TV ou ler jornais (que já não são mais partilhados…)”. 

 Não, eu não prego que os seriados ocupem o lugar das novelas na programação. Isso seria um retrocesso por um motivo muito simples: o único programa de TV genuinamente brasileiro é a telenovela diária. Sim, ela existe em todo o mundo, mas só aqui ela é feita desse jeito, com ousadia e grande investimento. Discutindo a realidade brasileira sem cerimônia, dando tratamento nobre ao texto e usando o clichê com mais parcimônia que as similares hispânicas. Devemos preservar a telenovela. Incluir o seriado e preservar a telenovela. Há espaço para ambos, cada um com seu enfoque e público.

O que defendo é que a novela seja tratada com a nobreza que merece e que conquistou em anos de cumplicidade com o povo. Não se vulgariza um patrimônio nacional.

As produtoras de telenovela precisam entender que o mundo mudou, o público mudou, a sociedade mudou e vai seguir mudando mais rápido do que nunca. Chegou a hora de fazer uma reforma geral neste produto para que ele tenha a vida longa que merece ter. Da mesma forma que a TV, os jornais e revistas impressas estão sofrendo com as mudanças, com um tempo onde o papel já não é necessário.

“A era da TV broadcast vai provavelmente durar até 2030. É como a época das charretes puxadas a cavalo, sabe? Era muito bom, até que veio o carro”.

 É assim que Reed Hastings, CEO da Netflix imagina o futuro da TV. Ele se baseia em pesquisas como uma que, depois de entrevistar mais de 24 mil norte-americanos, descobriu que famílias que assinam o Netflix ou Hulu são quase quatro vezes mais propensas a não contratar TV paga. O mesmo estudo revela que 42% dos adultos assistem vídeos em smartphones durante a semana. A ameaça às companhias de TV por assinatura acontece quando os assinantes passam a exibir esses vídeos na tela da TV, o que aumenta em mais de três vezes a probabilidade de eles não contratarem o serviço. Já os usuários que afirmam acessar esse tipo de mídia em smartphones e tablets são apenas 1,5 vezes mais propensos a não ter TV a cabo.

Claro que quando o principal executivo do Netflix diz coisas como essas, ele imagina que sua empresa possa ser o futuro da TV.

E a novela? Resistirá on demand?

“Em verdade, a comunicação só teve quatro momentos exponenciais: Homero, Gutenberg, televisão e internet. Contudo, a internet não vai acabar com a TV, nem com Homero, nem com Gutenberg. A TV apenas mudou a tela da sala de jantar para outras inúmeras telas ou telinhas mais disponíveis. Até Homero, que teria compilado séculos de poesia oral em papiros, é lido num Kindle. Só duas coisas vão mudar completamente: o modelo de negócio da comunicação, principalmente o da televisão, e a divulgação dos valores criativos, hoje realizada diretamente pela fonte”.

 Para que ao menos possa tentar sobreviver, a novela tem que cortar gorduras. Menos capítulos (entre 50 e 120 capítulos seria o ideal), menos cenários, locações, atores, diretores, autores…

Gente mais feliz trabalhando, sem sentir-se escravo de uma máquina insensível. Autores concentrados em seu trabalho, sem ter de dividir seu tempo com a administração de batalhões de colaboradores. Como as novelas serão menores, teremos mais novelas. E os colaboradores dispensados terão muito mais chances de emplacar suas próprias ideias como titulares.

Menos capítulos e capítulos menores. Trinta ou quarenta minutos de arte (descontados os intervalos comerciais) é tempo mais que suficiente. Em uma versão mais light a novela custará menos. E o público terá mais opções de melhor qualidade.

As novelas estão longas demais e alguém precisa tomar uma atitude. Será que só a gente enxerga isso?

Os artigos publicados pelos associados da ABRA são uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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