Por  Mariana Tesch Morgon, Lilian Mary Iaki, Paulo Wences Duarte

Morando no Cinema

Aceitamos o convite feito aos associados, para representar a ABRA e fazer parte do júri de melhor roteiro da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e embarcamos numa pequena maratona cinematográfica. Em poucos dias, no final de outubro, assistimos, junto com o júri oficial, aos quinze filmes classificados pelo público. Nos preparamos para ver filmes fantásticos e para uma grande dúvida na hora de premiar apenas um roteiro, entre todos os indicados. Mas não foi bem o que aconteceu.

Ao contrário do que imaginávamos, não foi nada difícil escolher o roteiro vencedor. Se antes da primeira sessão estávamos sentindo um mix de animação e ansiedade pelas potenciais diferenças de opinião e possíveis discussões fervorosas por vir, logo percebemos que o processo seria muito mais fácil que o antecipado. Isso não se deu porque éramos um júri homogêneo (muito pelo contrário, nossos backgrounds e referências são bastante diversos), mas porque um roteiro realmente se destacou entre os demais: El Amparo foi unanimidade. E o ajudou o fato de, entre seus concorrentes, não haver nenhum filme excepcional.

Interessante constatar como cinematografias tão diversas, com representantes da Alemanha, do Irã, da Bósnia, da Colômbia, do Japão ou do Líbano, apenas para citar algumas, possam apresentar tantas falhas parecidas. Em alguns momentos, distanciam-se de uma estética cinematográfica, flertam com uma dramaturgia muito próxima da TV e equiparam-se aos piores telefilmes – recheados de diálogos inorgânicos e de momentos que beiram a pieguice e o dramalhão. Outras vezes, lembram o teatro – não exploram a linguagem e acabam parecendo simples exercícios cênicos. E aqueles que possuem uma essência cinematográfica, se perdem em uma celebração vazia ao cinema clássico – seja europeu, seja norte-americano – em uma pletora de citações, que parece servir muito mais ao ego dos realizadores do que à referência transformada em caminho para a originalidade.

Neste ponto, mais foi menos e El Amparo conquistou nossa simpatia.

El Amparo (2016) – Venezuela

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Elipses de um Massacre

 La verdad no se come en un plato”, diz a determinada altura uma personagem de El Amparo, mas certamente ela ajuda a trazer vigor e autenticidade a um roteiro cinematográfico. Ao narrar o massacre de 14 pescadores tomados por guerrilheiros pela polícia local, o filme transpõe para ficção os acontecimentos que são uma ferida aberta na história recente da Venezuela.

Nos registros realistas que reproduzem o ambiente idílico e ao mesmo tempo precário de um pequeno pueblo de pescadores, a verdade é não só a tônica, mas ainda o ingrediente principal do longa de estreia de Rober Calzadilla.

O setup acontece quase em tempo real: caminhamos com o pescador Pinilla (Vicente Quintero), enquanto ele recruta conhecidos para uma pescaria. O filme não corre com as cenas e podemos sentir o passar do tempo no vilarejo à beira do rio Arauca, na fronteira entre Venezuela e Colômbia.

O roteiro recria as banalidades dos arranjos anteriores à partida para a pescaria e nos joga no dia a dia ordinário dos homens e mulheres da região. Algumas pistas falsas do que está por vir são plantadas: eles falam tanto sobre dinheiro, será que vão tomar um calote? Pinilla chama muita gente para a pescaria, inclusive bêbados, será que o barco vai virar? Ainda que já conheçamos o trágico evento que dá origem à história, somos capturados pela simplicidade e fluência da ambientação inicial.

A escolha pela inclusão de cenas e diálogos casuais, não necessariamente importantes para o plot, é essencial para gerar empatia pelos personagens principais e pelo consequente sentimento de injustiça e impotência que nos despertam, ao vê-los acusados por um crime que não cometeram. Outra excelente escolha da roteirista Karin Valecillos é a de não nos levar para dentro do barco com os pescadores.

Ficamos na vila com suas esposas e mães e esperamos. Eles não voltam, as mulheres se inquietam, então vemos na TV, que um grupo de guerrilheiros foi morto pelos militares na região dos canais do Rio Arauca. Agora finalmente ligamos os pontos. Pinilla e outro pescador, Chumba (Giovanny Garcia), os únicos sobreviventes, logo são presos e a pressão para que aquela cena não mostrada seja preenchida pela versão oficial dos fatos, ou seja, para que eles se assumam guerrilheiros, só aumenta.

Mas o filme não sugere versões possíveis de um mesmo acontecimento. Como nos coloca dentro da vila logo de cara, como conhecemos as vidas duras daqueles homens e mulheres, estamos com eles do começo ao fim. Não duvidamos da versão dos pescadores. Não precisamos ver o que aconteceu para acreditar no que dizem aqueles homens, ou nos familiares, amigos, vizinhos dos pescadores. Por isso a escolha de não mostrar o massacre fica ainda mais potente: não vimos o que aconteceu e ainda assim estamos contra a mídia, contra a versão oficial dos fatos, e nos colocamos ao lado daqueles que conhecemos, ao lado dos menos poderosos, ao lado da verdade.

A estrutura e escolhas do roteiro são inteligentes porque servem à história. Quantos roteiristas não optariam por mostrar detalhes do massacre? Quantos não recorreriam à flashbacks e sugestões de câmera lenta? O filme faz opção pela força da simplicidade, das relações humanas, da criação de empatia e assim, sem precisar recorrer a clichês, nos toca profundamente com uma história real de injustiça e abuso de poder.

Porém, este desejo por recontar a história exatamente como ela aconteceu, aliado a um compromisso talvez excessivo com os fatos históricos, também traz limitações, ao fazer com que o roteiro se torne um tanto engessado e acabe por perder parte da força que poderia alcançar se houvesse mais liberdade para o desenvolvimento dramático. Ainda assim, El Amparo possui inegáveis qualidades e escolhas certeiras, com momentos de tensão que vão crescendo e se intensificando, como na sequência em que um advogado alegadamente bem-intencionado, pede que eles assinem um documento para que se possa iniciar um processo burocrático que “os ajudará”. Como espectadores ficamos torcendo para que não assinem, ao mesmo tempo em que nos compraz, como roteiristas, ver os conflitos da dupla de personagens principais sendo trabalhados de uma maneira que foge dos lugares-comuns e do caminho fácil do puro panfletarismo a que esta leitura dos fatos poderia ter sido relegada.

Partindo de uma história que, ironicamente, na vida real não teve resolução até os dias de hoje, o filme termina com uma bifurcação: de um lado, a verdade nua e crua na imagem silenciosa de uma procissão de caixões levados a pé pelos moradores do vilarejo e de outro lado, observando este cortejo, de dentro de um carro de polícia, os dois “acusados” indo para a cidade grande, enfrentar os poderes da mídia e dos militares.

Durante a projeção, El Amparo nos convida a acompanhar as histórias da vila e de seus personagens como se estivéssemos ao lado deles e pudéssemos até mesmo servir-lhes de testemunhas nos tribunais. Após seu fim, nos proporciona a sensação de trazê-los conosco para dentro de nossas próprias vidas. Que a história continue em nós, após o filme, é a maior realização que um autor pode esperar.

  • Direção: Rober Calzadilla
  • Roteiro: Karin Valecillos
  • Fotografia: Michell Rivas
  • Montagem: Gustavo Rondón Córdova, Mariana Rodriguez
  • Elenco: Vicente Quintero, Giovanny García, Vicente Peña, Rossana Hernández, Samantha Castillo
  • Produtor: Marianela Illas, Rubén Sierra Salles
  • Produção: Tumbarracho Films, Películas Prescindibles

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