por Marcílio Moraes

Amigos da ABRA,

Foi sugerido que eu escrevesse a respeito do nosso querido Max. Sobre a morte dele, mais propriamente. Dizer o quê, me perguntei. Que palavras restam?

Em vista do extraordinário talento do homenageado, me ocorreu usar algum panegírico famoso, tipo les Oraisons funèbres, de Bossuet ou coisa parecida. Aí me lembrei da risada sacana do Max: Bossuet, porra? E resolvi fazer o óbvio: recorrer ao que o próprio MM escreveu.

Nada mais apropriado para mostrar a fina ironia dos textos dele, comparável a Umberto Eco em “O nome da Rosa”, por exemplo – e que por coincidência tem a ver com o momento que vivemos – do que a cena entre Dolens, o protagonista, o sacerdote de Plutão, os cristãos furiosos e a mocinha, em ‘As mil mortes de Cesar’.

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O homem se levanta e caminha a passos medidos até o sacerdote itinerante.

– Preces a Plutão, pelos mortos! Preces a Plutão pelos mortos!

– Quero encomendar uma prece.

– O nome do falecido, qual é?

– Não é um só.

O homem avalia os pescadores: o mais barbudo tem uma faca no cinto. Dois carregam varas compridas com um gancho de ferro na ponta. E há um último aparentemente desarmado, embora bem mais forte que os outros. São quatro.

– Que lástima… Quais os nomes?

– Não sei.

– Quando foi que eles morreram?

– Em breve.

O sacerdote, confuso, observa com mais atenção o possível cliente e se assusta com os olhos dele, castanhos e fugidios como os de uma ave de rapina.

– Posso fazer desconto para grupos – ele diz, quase gaguejando.

– Tanto faz – rebate o homem, enquanto se afasta. – Não sou eu quem vai pagar.

O mais barbudo dos pescadores sacode a menina pelos cabelos e chuvisca cuspe no rosto dela enquanto vocifera:

– Aberração pagã, você se entrega ao sacramento do batismo?

– Entrego o quê?

– Nega que Iesus Christus é ao mesmo tempo carne e deus?

– Carne de quem?

– Matem esse demônio – o mais barbudo joga a menina para os outros.

– Soltem a moça.

Os quatro pescadores e a menina olham com surpresa para o mendigo esfarrapado que se aproximou.

– Isso não é da sua conta, irmão – diz o mais barbudo.

– Não sou seu irmão – das dobras da toga, o homem saca o punhal. E diz, com voz cavernosa: – veni cum papa!

Não sei se é o que esperavam, foi o que me veio. Abraços. Marcílio.

Nota de pesar

pelo falecimento de nosso jovem e bravo colega, amigo e companheiro militante das causas dos roteiristas. Aos 48 anos, vítima de um combate que o câncer venceu.

Velório amanhã, sábado, dia 5/11, a partir das 11:00, no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, capela 5. Cremação às 13 hs.

Uma cerimônia está sendo organizada para celebrar sua vida em Porto Alegre.

1 Comentário

  1. Max morreu.
    Deixa eu recomeçar. Explicar melhor. Max Mallmann, roteirista, gaúcho, casado, 48 anos, morreu na madrugada de sexta de câncer no pulmão.
    Não. Isso não explica nada. Melhor assim: o Max morreu. Que merda.
    Eu não deveria estar aqui falando dele. Não mereço: acompanhei muito pouco – quase nada – da sua vida nos últimos cinco anos. Nesse tempo nos vimos apenas umas poucas vezes, quase sempre por acaso, e a cada vez surpresos com as mudanças em nossas vidas: uma vez caçoei dele porque havia engordado muito; numa outra vez ele descontou porque quem havia ganho peso fui eu. De outra vez soube que havia se separado; tempos depois que havia voltado. Quando decidiu deixar crescer o cavanhaque, apenas o cavanhaque, com requintes de nobre babilônico. Quando ele reparou que desisti de vez dos cabelos que me restavam e comecei a passar máquina. A última mudança física, resultado da quimio, não consegui ver pessoalmente. Soube do câncer já depois de muita luta, e nas últimas duas semanas fiz tentativas tímidas de voltar a vê-lo, tentando respeitar um estado de saúde pouco favorável. Se soubesse – se desse pra prever essas coisas – tinha tentado um pouco mais. Acabei não conseguindo. Em vez disso acabo de voltar do velório, onde tive que me despedir diante de um caixão fechado, mas pelo menos tive a chance de dar um abraço na Dindi, sua mulher, e rever os amigos que também tiveram o privilégio de conviver com esse cara incrível.
    Não nos afastamos por nenhum bom motivo (nem quando há motivo é um bom motivo): foi apenas a vida. Mudei de estado civil, mudei de bairro (fui para além túnel, que os habitantes da zona sul insistem não ser mais Rio), mudei de emprego (num trabalho em que todos seus colegas trabalham de casa, isso faz muita diferença). Me afastei dele e de muitos outros amigos da “firma”, muitos dos quais revi hoje depois de muitos anos, um afastamento meramente formal, uma vez que o carinho continua o mesmo. A gente pensa: sempre tem tempo de retomar. É… sempre…
    Vou falar dele mesmo assim. Porque posso não ter estado perto nos últimos anos, mas estive em todo o começo de sua aventura como roteirista. E isso conta para alguma coisa. Então, se ninguém se opuser… vou começar.
    Nos conhecemos em meados de 1998, selecionados para a 3a Oficina de Teledramaturgia da Rede Globo em São Paulo, em uma turma de onde sairiam ainda Adriana Lunardi (a esposa dele), Mário Viana, Maria Camargo, Renato Modesto, Gabriela Amaral, Lúcio Manfredi e Thelma Guedes – todo mundo aí, fazendo um monte de coisas. Ainda me lembro a primeira vez que o vi, o jeitão peculiar, sotaque forte, o jeito afável, doce, que não denunciava minimamente o humor afiado. No primeiro mês éramos doze, e convivemos pouco, separados em grupos diferentes e uma carga de trabalho intensa. Mas a partir do segundo mês a seleção nos reduziu à metade (Lúcio e Thelma eram orientadores), e quando ficou claro que haviam passado pela fase seletiva e ficariam até o final do ano em SP, convidei-os a alugar um quarto em casa. Eu morava sozinho e havia vivido pouco tempo antes a experiência de morar na casa dos outros. Me pareceu natural, e foi.
    E foi assim que conheci os dois, Max e Dindi, melhor. Como haviam se conhecido em uma sessão de cinema, que na minha lembrança contou apenas com eles dois, e de onde saíram quase que na mesma hora para morar juntos. Como ele já tinha publicado uns dois ou três livros, e ganhava a vida como funcionário público, seguindo a tradição de Machado de Assis e Kafka. Nossa convivência era tranquila e aos poucos fui ficando bastante amigo do casal: se eu os levava todos os dias para a Oficina, pela manhã eu era brindado sempre com uma mesa posta com café da manhã. Discutíamos as tarefas e exercícios, nos ajudávamos sempre que possível, e vez por outra esticávamos sempre no mesmo bar, o Barnaldo Lucrécia, a poucas quadras de casa e no qual haviam se tornado presença obrigatória.
    Dos três, apenas o Max foi contratado naquele momento, e logo em seguida os dois se mudaram oficialmente para o Rio de Janeiro. Eu seguiria o mesmo caminho um ano depois, e embora minha carreira tenha seguido caminhos um pouco diferentes, acabei fazendo muitos amigos entre autores e colaboradores de novelas e seriados, e assim continuamos fazendo parte da mesma turma, ou das mesmas muitas turmas. Moramos no mesmo prédio no Humaitá, fomos vizinhos na Lagoa. Nos encontrávamos frequentemente nos bares de sempre, nas casas dos amigos, nos aniversários e festas de final de ano. Acompanhei sua carreira na Grande Família, comprei seus livros no coquetel de lançamento. Gostei muito de todos. Max era um grande escritor, e um excelente roteirista.
    Permanecemos amigos próximos, daqueles que procuramos quando estamos com algum problema e precisamos de alguma ajuda. Mas nada disso explica quem ele era. Como resumir um cara tão singular como o Max para quem não o conheceu? Antes de mais nada – ele era profundamente espontâneo, e jamais escondia o que estava pensando, o que chegava a constranger quem não o conhecia direito. Quando falava algo engraçado ele inclinava a cabeça e olhava bem perto pra você pra ter certeza que você estava rindo junto, estava fazendo parte da piada. Tinha uma língua ferina com um talento especial: falava as coisas mais contundentes sem maldade alguma, e sempre acertava na mosca, invariavelmente as melhores metáforas eram sempre dele. Os amigos próximos falavam que queriam ser sempre amigos do Max, não para serem poupados de sua sagacidade (ninguém era), mas para estarem presentes no momento em que fosse proferida. Em dezoito anos nunca escutei uma única pessoa falar mal dele. Era uma dessas raras pessoas que eram uma unanimidade, num meio tão pequeno e próximo que às vezes parece uma cidade de interior e onde é normal nos desentendermos com alguém apenas para voltar a ficar na boa logo depois. Nunca vi o Max se desentender com ninguém. Mesmo suas histórias mais comprometedoras (quem de nós nunca…) eram contadas entre risadas cúmplices: “só o Max!”. Era absolutamente impossível ficar bravo com ele. Ele tinha uma simplicidade infantil que desarmava qualquer um, ao mesmo tempo em que era extremamente maduro, ponderado e… pronto, já estou procurando adjetivos. Nenhum deles serve. A verdade? O Max era foda.
    E agora ele não está mais entre nós. Foi embora de um jeito besta, com uma doença besta, que descobriu de um jeito ainda mais besta. Contam que fez piadas até o último momento. Nunca levou nada muito a sério, não seria uma coisa dessas que iria tirar seu bom humor. Seu último trabalho, em parceria com a Dindi, é um seriado chamado Ilha de Ferro, um conceito bacana pacas e muito diferente de tudo que já foi feito por aqui. Era nesse seriado que focou suas energias nesses últimos meses. No velório tinha uma coroa de flores enorme com os dizeres “a Max Mallmann, nossa Ilha de Ferro”. Acho que isso define ele bem pra caramba: forte, seguro, e independente. Queria ter estado mais próximo. Sou uma pessoa melhor pelo tempo que passei perto dele. Terei que me contentar com as lembranças, todas boas, e quero tomar um porre com os amigos em homenagem a ele, lembrando essas várias histórias e rindo, rindo muito, pra ver se leva toda essa dor embora.

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