por José Vitor Rack

No último dia 23 o jornal O Globo publicou uma matéria sobre o crescimento do mercado audiovisual brasileiro. Os dados apontados pelo texto da jornalista Glauce Cavalcanti com colaboração de André Miranda são impressionantes. Mesmo com o país vivendo a maior recessão das últimas duas décadas, o setor cresce 9% ao ano, gera 24,5 bilhões de reais para a economia (em 2007 não chegávamos a R$ 9 bilhões segundo a ANCINE) e tem peso econômico equivalente aos mercados farmacêutico e têxtil. O dinheiro movimentado na economia pelo audiovisual representa mais do que o comércio de veículos automotores.

O crescimento do audiovisual brasileiro

O número de produções não para de aumentar, impulsionada principalmente pela lei de cotas para conteúdo nacional na TV paga. No ano da assinatura da lei foram licenciadas 761 obras audiovisuais para atender este mercado. Ano passado foram 3.600. Este cenário se dá mesmo com a diminuição da base de assinantes dos serviços de TV paga no país, decorrência tanto da crise econômica quanto do avanço do vídeo on demand. Já somos o oitavo mercado mundial de VOD e a Netflix estreia agora em novembro a sua primeira produção original nacional. O cinema e as outras mídias também registraram crescimento expressivo, embora menor que o da televisão. Ano passado o Brasil produziu 129 filmes, foram abertas 100 novas salas de cinema e o número de ingressos vendidos nas bilheterias aumentou 10%.

As explicações para este momento esfuziante do mercado não são únicas. As políticas de incentivo e financiamento ao setor (que tiveram início no governo Collor e foram mantidas e ampliadas por Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma) fizeram este mercado ter uma dinâmica independente da economia geral do país. Mesmo com o financiamento e o crédito estando em baixa para empresários de outras áreas, as verbas que movimentam o audiovisual continuam existindo e fazendo o mercado crescer. O Fundo Setorial do Audiovisual e linhas de crédito como a do BNDES fazem a máquina girar mesmo em períodos duros como o que vivemos hoje.

O setor de entretenimento como um todo cresceu com o expressivo ganho de renda da população nos últimos vinte anos. As pessoas que não frequentavam cinema passaram a frequentar. Algumas até pagam o seu ingresso com o Vale Cultura que recebem em seu emprego. Quem só via TV aberta passou a ver as séries do cabo. Quem nem tinha computador em casa, hoje assina serviços de on demand para consumir conteúdo no seu telefone celular. Esse novo público passou a consumir e aprendeu a julgar o que consome, exigindo maior variedade de temas e abordagens.

Se temos público e financiamento, quais seriam os principais problemas do mercado audiovisual? No cinema há um vilão muito claro. O vice-presidente do SICAV, Leonardo Edde, disse na matéria de O Globo que “nossa crise é de participação de mercado do cinema nacional. Filmes americanos de grande orçamento estão tomando proporções gigantescas na exibição. Às vezes um único título chega a ocupar um terço das salas do país. Estamos discutindo o assunto com a ANCINE.” Muitas de nossas melhores produções cinematográficas não chegam ao público. São exibidas em salas distantes da grande massa populacional, ficando pouco tempo em cartaz. Na televisão ocupam canais de nicho, ou horários alternativos nos canais abertos.

O verbo, o fim e os meios

O autor roteirista brasileiro é peça central neste mercado. Deveria estar comemorando o crescimento dele, as novas oportunidades que surgem em todo o país, ganhando mais dinheiro e sentindo-se mais satisfeito com a profissão. Todavia, infelizmente a valorização profissional da classe não é proporcional ao crescimento do mercado.

Contadores de história que são competentes, criativos e hábeis em tom, gênero, estrutura, narrativa, conflito, arco dramático e diálogos sempre encontrarão boas oportunidades de trabalho, mas não com o nível de valorização que a profissão mereceria diante de tamanho impacto do audiovisual na economia. Na mídia é comum vermos diferentes atores deste mercado reclamando da qualidade do autor roteirista nacional. Poucas vezes eles mencionam a forma desrespeitosa como este mercado trata o autor roteirista, passando por cima de conceitos básicos de respeito, justiça e legalidade. Que atire a primeira pedra quem nunca foi convidado a trabalhar de graça.

Nós, autores roteiristas, ficamos muito felizes com o fato do audiovisual brasileiro expandir-se de maneira constante e expressiva. Ficaremos ainda mais contentes quando percebermos que o nosso trabalho, base original de qualquer produção, é considerado item essencial e valorizado como tal.

Queremos crescer junto com o mercado. Afinal de contas, o princípio ainda é o verbo.

Os artigos publicados pelos associados da ABRA são uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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