O Obitel, Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva, rede internacional de pesquisa quantitativa e qualitativa, já tem 11 anos de existência e publicou 10 Anuários, resultado de monitoramento e estudo comparativo das narrativas televisivas nacionais da região. A cada dois anos o Seminário Internacional ocorre no Brasil. Em 2016, aconteceu no dia 1º de setembro, na Biblioteca Brasiliana, na USP.

XI Seminário Internacional Obitel

A mesa de abertura teve a presença do professor José Marques de Melo que há mais de 40 anos atua no campo da Comunicação no país e foi um dos fundadores do CETVN, Centro de Estudos de Telenovela da Escola de Comunicações e Artes, ECA, USP. Idoso e visivelmente debilitado falou que começou a estudar telenovela nos anos 60 e que, então, era desvalorizado por dedicar seus estudos a esse “lixo cultural”. Depois, nos confidenciou que naquele momento se sentia personagem de uma novela própria chamada “O Morto Vivo”, pois um ano atrás, vítima da doença de Parkinson, com mobilidade limitada, lhe foi proposta uma cirurgia e ele pensou: -“Paulo José fez a cirurgia e está pior na novela Em Família”. Ao que o médico retrucou: – “Não, ele apenas está atuando”. Salvo, assim, pela telenovela, teve excelente recuperação e foi aplaudido de pé pela plateia que lotava o auditório.

Todas as mesas tiveram a mediação de Rodrigo Fonseca, roteirista da Globo e crítico de cinema. A primeira mesa foi sobre a mobilização por meio da ficção e teve Rosane Svartman, Emanuel Jacobina e a diretora de Responsabilidade Social da Globo, Beatriz Azeredo. Falou-se da importância da telenovela como mobilizadora da sociedade por sua sintonia e, ainda, como reflexo do social. Foram lembradas novelas como Mulheres Apaixonadas e Cheias de Charme, que tiveram influência na criação da Lei do Idoso e na PEC das domésticas. Beatriz enfocou a presença das temáticas sociais tanto em cenas de contexto, inseridas na trama, quanto em cenas com mensagens socioeducativas específicas, que trazem diversidade de tópicos a cada ano. Vimos no telão alguns exemplos. Rosane destacou a importância dos pesquisadores que dialogam com os autores no sentido de abordar acertadamente assuntos técnicos, médicos ou controversos como legislações, tratamentos clínicos e outros. Também falou das ações socioeducativas em múltiplas plataformas. Jacobina abordou a relação fundamental entre o “racional necessário e o emotivo obrigatório” que o autor deve trazer para seu trabalho, ou seja, a inserção do tema socioeducativo precisa estar imbricada com a trama de maneira tal que uma colabore e amplie a outra.

A segunda mesa teve a presença de José Alvarenga Júnior falando de criação e hibridação de gêneros e os professores Maria Immacolata Vassallo de Lopes e Guillermo Orozco coordenadores gerais do Obitel que trataram do aprender/reaprender a fazer séries. Nessa mesa falou-se das antigas séries brasileiras, da influência das séries norte-americanas, da diversificação de plataformas e, finalmente, da experimentação de novos gêneros ou fusão/ hibridação. Assistimos a uma chamada com cenas impactantes da série Supermax, ainda inédita, e que mistura terror, reality e suspense.

As mesas do período da tarde trouxeram relatos dos representantes dos países do Obitel em que foram apresentados também clipes dos cinco maiores ratings da ficção televisiva de cada país. Além de podermos observar múltiplos estilos de articulação narrativa, representação, gêneros, formatos e capacidade produtiva, ainda pudemos ver várias de nossas novelas e séries dubladas e ocupando posições relevantes no ranking. A terceira mesa teve como comentarista Rosane Svartman que abordou o consumo de conteúdo de TV no Brasil em plataformas múltiplas, com características locais, em um momento de grandes alterações no modelo de televisão hegemônica que tivemos até então. O conteúdo que não é mais consumido apenas na TV, é modificado, circula de muitas formas, é retransformado e republicado pela audiência. Diz que o Brasil tem um modelo de transmídia nosso, muito próprio. Na quarta mesa Walcyr Carrasco falou sobre seu modo de criar e de suas obras mais recentes, Êta Mundo Bom, Verdades Secretas e Amor à Vida. Indico aqui dois links que falam sobre essa participação de Walcyr mais detidamente:

A quinta mesa, já no final do dia, trouxe para o debate a Diretora Executiva do Kantar IBOPE Media, Dora Câmara, falando sobre as alterações no setor de medição de audiências ao redor do mundo devido às multitelas, novas formas de assistir ficção televisiva e o conceito de audiência 360 graus. O Anuário Obitel 2016 é distribuído gratuitamente e também pode ser baixado em português, inglês ou espanhol neste link.

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Ligia Lemos é roteirista e redatora. Carreira desenvolvida na área de comunicação corporativa, com ênfase em indústrias automobilísticas e setor hospitalar. Experiência em coordenação de equipes e viabilização de projetos; roteirização e produção de vídeos; criação, redação e revisão de textos técnicos; desenvolvimento de conteúdo para a internet; acompanhamento e execução de projetos de e-learning. Doutoranda em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA, USP. Atualmente estuda transmídia e autoria de ficção televisiva brasileira. É pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela, CETVN/USP e do Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva, Obitel. Mestre em Ciências da Comunicação e Especialista em Gestão da Comunicação - Políticas, Educação e Cultura também pela ECA, USP.

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