Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2016

Ao Sr. Manoel Rangel

Presidente da Ancine

 

C/C Ao Sr. Paulo Alcoforado

Secretário de Políticas de Financiamento da Ancine

 

Caros,

 

Diante das alterações no edital FSA/BRDE PRODAV 03/2016 – Núcleos Criativos, a Associação de Roteiristas – AR e a Associação de Autores de Cinema – AC, em processo de fusão, vem expor o quanto segue.

 

Inicialmente é de se reconhecer que o estabelecimento dos núcleos criativos é uma das mais importantes políticas de incentivo ao desenvolvimento de projetos audiovisuais e tem contribuído enormemente tanto para a valorização do trabalho dos roteiristas brasileiros quanto para o amadurecimento da indústria como um todo, gerando trabalho e renda por todo o país.

 

Foi com grande surpresa, porém, que tomamos conhecimento das alterações feitas no edital atualmente vigente para esta modalidade sem qualquer consulta aos representantes da categoria mais interessada nesta política pública: os roteiristas.

 

Vale lembrar que um dos maiores acertos desta política foi o investimento voltado na potencialidade dos projetos, favorecendo tanto a diversificação nos gêneros e temáticas abordados pelo audiovisual brasileiro quanto a ampliação de agentes econômicos envolvidos na produção realizada no país. Eventos como Rio Content Market, Rio Market do Festival do Rio, rodadas de negócio do Festival de Roteiro de Porto Alegre, entre outros, demonstram que hoje produtoras pequenas e médias tem acesso aos grandes players do mercado justamente porque contam com cartelas de projetos interessantes para oferecer, fruto direto desta política pública.

 

Porém, agora, na presente edição do edital de núcleos criativos, nota-se que houve elevação injustificada de peso do critério referente ao currículo da empresa proponente em detrimento do perfil do núcleo e da equipe, em um evidente retrocesso que mais beneficia grandes empresas produtoras já consagradas no mercado do que de fato aposta na força dos projetos que podem a vir a ser os mais interessantes para os diversos compradores e distribuidores.  

 

Acreditamos que para o desenvolvimento o que deveria ser o pilar fundamental da avaliação é a qualidade do projeto e sua capacidade de atrair investimentos na fase posterior de produção, o currículo dos profissionais responsáveis pela proposta e a metodologia definida para que o projeto alcance o melhor nível de maturação possível. Desta forma, solicitamos que seja revisto o edital no sentido de recuperar os pesos atribuídos em 2015 a “Perfil do Núcleo” (que seja elevado a 20%), “Equipe” (que seja elevado a 20%) e “Currículo da Proponente” (que seja reduzido a 5%. ).

 

Além disso, em uma tentativa de simplificar a apresentação de projetos, o novo formulário determina um número exíguo de linhas para defesa da história que se pretende contar, sendo ela um longa-metragem ou uma série de TV. Reforce-se que as séries muitas vezes trabalham com tramas múltiplas e podem demandar maior texto escrito justamente por isso. É de se questionar ainda se em tão pouco espaço os proponentes conseguirão trazer elementos que permitam visualizar a potência de um determinado projeto. Por isso, sugerimos uma ampliação no limite de número de linhas para detalhamento da proposta.  

 

Por outro lado, gostaríamos de apontar algo que nos parece incoerente em um edital de desenvolvimento de projeto onde o próprio nome indica que o objetivo é fomentar ideias que ainda não tenham sido plenamente desenvolvidas. O novo formulário exige que sejam apresentadas as sinopses de todos os episódios de uma temporada de série com desenvolvimento do arco curto e gancho ao final (se houver). Estruturar uma série, cada um dos episódios, é possivelmente a etapa mais trabalhosa do processo de desenvolvimento e exige atenção e cuidado extremos e, na maioria das vezes, a colaboração criativa entre diversos profissionais o que é inviável nesta fase. É de se cogitar também se tal medida não acabará prejudicando o desenvolvimento dos próprios projetos, induzindo a consolidação de um desenvolvimento feito de forma totalmente precipitada. Em outras palavras, levando os roteiristas, muitos ainda inexperientes no mercado de séries, a aprofundarem fragilidades narrativas eventualmente cometidas agora para atender o edital. Desta forma, sugerimos a retomada do critério expresso no edital anterior para que a exigência seja apenas das sinopses dos primeiros episódios da temporada.  

 

Superadas estas questões pontuais, gostaríamos ainda de reiterar nossa demanda exarada em reunião anterior a respeito da composição da comissão avaliadora, dos critérios de avaliação, do acolhimento ou não de recursos contra a avaliação feita e da fiscalização dos recursos financeiros distribuídos às produtoras.

 

Desta forma, serve a presente para requerer:

 

  1. A revisão dos pesos atribuídos aos critérios de avaliação das propostas de núcleo criativo, resgatando os parâmetros estabelecidos no edital anterior (Prodav 03/2105), ou seja: 40% para o potencial criativo da cartela de projetos, 20% para o perfil do núcleo, 15% para o currículo do Líder do Núcleo, 20% para qualificação técnica dos profissionais contratados e  5% para histórico de projetos desenvolvidos e produzidos pelo agente econômico brasileiro independente proponente

 

  1. Ampliação de número de linhas para a defesa de projetos no formulário de proposta audiovisual (Anexo III), nos itens (b), (e) e (f) conforme detalhado a seguir:

 

– Alteração do item (b) para: Descrição do universo e suas leis em até 20 (vinte) linhas;

– Alteração do item (e) para: Descrição de personagens, incluindo seu perfil psicológico e as relações que estabelecem entre si, assim como seus conflitos e motivações em até dez linhas cada;

– Alteração do item (f) para: Sinopse dos três primeiros episódios da temporada, cada um com até 20 (vinte) linhas, com desenvolvimento do arco curto e gancho ao final (se houver);

 

  1. Composição de comissão avaliadora com profissionais com declarada experiência no tipo de projeto avaliado. Por exemplo, devido a sua especificidade, projetos de séries devem ser analisados por profissionais que tenham comprovadamente experiência nessa área.

 

  1. Clareza e publicidade prévia sobre os critérios que serão adotados pela Comissão de Seleção para  avaliação dos projetos e dos currículos dos profissionais.

 

  1. Publicação das notas de avaliação de todas as proponentes.

 

  1. Apresentação das justificativas para indeferimento ou acolhimento de recursos contra os pareceres.

 

  1. Estabelecimento de uma fiscalização sobre quem assina e quem efetivamente realiza os roteiros cujo desenvolvimento foi financiado pelo FSA.  

 

Gostaríamos, por fim, de uma vez mais exteriorizar nossa demanda de participar ativamente do processo de formulação dos editais de modo a contribuir com a permanente valorização do trabalho incansável daqueles que se dedicam a contar histórias nas telas brasileiras e para o fortalecimento contínuo das políticas públicas para o Audiovisual brasileiro. Julgamos fundamental nossa inclusão prévia neste processo a fim de evitar que estes problemas se repitam no futuro.

 

Lembramos também que AR e AC estão em processo final de fusão em uma nova associação, que se chamará ABRA – Associação Brasileira de Autores Roteiristas, fato que será oportunamente divulgado.

 

Cordialmente,

 

Ricardo Hofstetter

Presidente da AR – Associação de Roteiristas

 

Thiago Dottori

Presidente da AC – Autores de Cinema

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