Para a abordagem do texto POSSIBILIDADES DO PROCESSO CRIATIVO, creio ser interessante deixar bem claro logo de início que se trata de um estudo no aspecto mais abrangente da palavra criatividade.

Cproc_criaomo há a possibilidade dos leitores do presente artigo se interessarem apenas pela criatividade em suportes específicos, temo frustrá-los com a abrangência do conteúdo.

Feito esse aviso, que é destituído de qualquer arrogância que possa aparentar, fico mais tranqüilo para me dirigir àqueles que tenham interesse em trilhar os primeiros passos do processo, independente do suporte de preferência.

Quem entre nós, roteiristas, autores, redatores, diretores já não se viu enroscando durante uma palestra ou mesmo nos papos de botequim com aquela incomoda pergunta feita pelo nosso interlocutor, achando que só nós poderíamos responder: O que é criatividade?

A criatividade tem sido estudada e definida de diversas maneiras revelando a existência de um fenômeno complexo e com muitas facetas. Nas definições mais antigas do termo CRIATIVIDADE encontramos o termo latino CREARE= FAZER e o termo grego KRAINEN=REALIZAR.(1)

Tanto no vocábulo latino quanto no grego podemos identificar o conceito de produzir (Fazer/Realizar), dar materialidade a uma idéia imaterial. Não importa quem você seja, o espírito criativo está em você. Ele vai se manifestar? Ai já é um outro problema.

Nunca lhe aconteceu de você estar na praia, na piscina ou correndo completamente descontraído após algumas horas de trabalho? Eis que, de súbito, ocorre-lhe a solução criativa de um problema que vinha lhe tirando algumas noites de sono. Nesse momento entramos em contato com o espírito criativo responsável pelas boas e, às vezes, grandes idéias.

O espírito criativo é mais que um lampejo ocasional ou um desabrochar da fantasia; quando ele desperta, anima toda uma maneira de ser: Uma vida repleta do desejo de inovar, de explorar novas formas de fazer as coisas, de transformar sonhos em realidade. Não importa quem você seja, o espírito criativo pode entrar na sua vida. Está à disposição de qualquer um que se disponha a ousar e explorar novas possibilidades. (2)

Todo momento criativo tem sua anatomia, mas qualquer modelo das etapas do processo criativo, não passa de uma aproximação rudimentar de um processo muito mais fluído e que pode tomar rumos diferentes.

Etapas do Processo Criativo

A primeira etapa do processo criativo é aquela que está sendo chamada pelos psicólogos que estudam os fenômenos criativos, de etapa da preparação, é quando mergulhamos no problema e investigamos tudo que possa ser relevante.

A imaginação voa livremente e nos abrimos para tudo que possa ser importante para a solução criativa. Às vezes encontramos algumas armadilhas que impedem a nossa criatividade nessa fase.

Uma armadilha a ser contornada é a fixidez funcional, que é o hábito de ver as coisas sempre da mesma forma: procuramos sempre a forma óbvia de encarar problemas e situações que exigem inovação.

A segunda armadilha é a autocensura, aquela voz interior que confina nosso espírito criativo aos limites que consideramos aceitáveis. Lembremos o que disse Mark Twain: “ O homem com uma idéia nova é um excêntrico até essa idéia obter sucesso”.

A segunda etapa do processo criativo podemos chamar de INCUBAÇÃO. Depois de “examinar” minuciosamente todas as possibilidades do processo preparatório, podemos deixar o processo “cozinhar em fogo brando”. É a etapa da incubação. Se a preparação exige trabalho, a incubação é mais passiva: boa parte da incubação acontece na área nobre da mente: no inconsciente podemos “dormir sobre o problema”.

Não raro subestimamos o valor da mente inconsciente. Ela, porém, presta-se melhor à criatividade do que a mente consciente. Nela não existem julgamentos de autocensura, as idéias ficam livres para combinações com padrões novos de criatividade e associações imprevisíveis numa espécie fantástica de fluidez promíscua.

Os cientistas que pesquisam o conhecimento, isto é, que estudam como a informação transita pelo cérebro, ensinam que toda lembrança é inconsciente até tornar-se consciente, e que apenas uma fração do que a mente absorve – menos de 1% – chega à esfera da consciência plena.

Nesse sentido a mente inconsciente é intelectualmente mais rica do que a consciente, pois dispõe de mais dados e armazena as ricas fantasias que constituem a inteligência dos sentidos (2).

A terceira etapa do processo criativo é aquela que os cientistas chamam de DEVANEIO: quando ficamos mais receptivos aos impulsos do inconsciente. Daí o “sonhar acordado” é tão útil na busca da criatividade.

Precisamos de um tempo em que a tagarelice mental, os ruídos e juízos da mente são silenciados. Assim, conseguimos fazer contato com uma parte mais profunda de nós mesmos, capaz de revelar novos padrões e novos paradigmas.

A quarta e última etapa do processo criativo é a ILUMINAÇÃO: é a fase que chamo de estrelar, que merece toda glória e atenção, momento longamente perseguido, a sensação do “É isto!”.
Quem de nós não tem um texto cuja solução perseguimos por longos anos, mas ainda não sentimos a sensação do “É isto!?” Aquele momento que aparece das profundezas do caos criativo, “emergindo” do inconsciente e que nos ilumina completamente, pois encontramos a “nossa jóia preciosa”.

Mas calma! Ainda não acabou! Falta dar materialidade à idéia, tornar a iluminação em algo útil para nós e para os outros. É como voltar ao início desse texto, quando definimos Criatividade como Fazer, Realizar. No nosso caso, cada um que faça o seu roteiro.
Numa próxima etapa falaremos dos Criatogênios e dos Criaticidas.

1- Wechsler,Solange Muglia. CRIATIVIDADE,descobrindo e encorajando. Ed. Livropleno, 3ª. Ed. Campinas-SP, 2002.

2- Goleman, Daniel. Espírito criativo, Ed. Cultrix. 13ª.edição, 1999.

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