Lauro César MunizComo dramaturgo e roteirista veterano também fui beber em fontes seguras, quando me propus a escrever para teatro. Li muito o teatro dos mestres clássicos gregos, dos renascentistas, Goldoni, Shakespeare, Moliére, Racine, até chegar aos modernos.

Li os teóricos do teatro em geral, para sustentar minha dramaturgia inicial. E não menosprezei minha intuição, nunca! Mas devo admitir que, como aluno da Escola de Arte Dramática nos anos de 1961/62, encontrei um instrumento, ferramentas de trabalho e análise que me foram bastante úteis e que passo, sempre que posso, aos jovens roteiristas garimparem o ouro verdadeiro e não o chamado ouro dos tolos, a pirita.

A grande questão não é analisar estatisticamente as grandes obras do teatro e do cinema e tirar conclusões, mas fornecer um instrumental para ajudar o autor (teatrólogo ou roteirista) a PENSAR sua obra, em termos estruturais! Nada de minutagem ou camisas-de-força.

Quando eu era jovem como vocês, busquei entender o que era ação dramática em alguns receituários da época. Satisfazia-me com o pouco que encontrava, mas não conseguia encontrar o “motor” que faz mover a ação no teatro e cinema.

A palavra AÇÃO sempre era enfocada com conotação de movimento físico exacerbado, forte, violento. E eu me perguntava – e a ação de uma obra reflexiva? Por que é tão forte e impactante a ação da cena entre Nora e Elmer em “Casa de Bonecas” – peça para mim exemplar como dramaturgia (mais ainda naquele momento).

Nessa cena não há barulho, nem conflito físico ou violento, há um duelo delicado entre um marido e sua mulher que decidiu emancipar-se. No entanto era muito mais forte e envolvente que os tiroteios e duelos dos faroestes.

Como resolver essa equação?

Ação dramática não é porrada é mais do que porrada. O que é ação dramática? Os livros com receituários da época não me respondiam essa questão, até que…

Até que conheci um novo sistema muito mais vivo, colocado pelo Boal, apoiado na dialética hegeliana, que ele aperfeiçoou, a partir de John Howard Lawson, um teórico americano, forte presença das décadas de 1930 e 1940.

Tempos depois acabei por ler o livro básico do Lawson e entendi que o Boal havia dado um passo à frente, aperfeiçoando a teoria do roteirista americano. Ao contrário de outros métodos, que propõem fórmulas rígidas, fechadas, como um receituário, a visão de Boal cria todo um universo, uma forma rica para encarar a dramaturgia, com apoio da dialética hegeliana, um processo de análise da natureza, riquíssimo, forte, abrangente, adaptado para a dramaturgia.

Era um processo de uma riqueza espantosa, porque não estabelece regra de feitura de peças teatrais ou roteiros, ao contrário, estabelece um método de pensar a ação dramática. É muito mais eficiente e eficaz pensar a ação dramática como um sistema, do que estabelecer uma série de regrinhas rígidas de “boa” dramaturgia.

O sistema parte da famosa tríade hegeliana, tese, antítese, síntese e mostra que se dramaturgia é refazer a vida no palco (ou na tela), é possível compor vidas e relações a partir da dialética, fazendo a inter-relação de dinâmicas que se contradizem.

Ao mesmo tempo, Hegel tem toda uma poética que facilita essa ponte entre a dialética dele e a possibilidade de análise da estrutura dramática. Em resumo, o que Boal propunha nessas aulas:teatro é conflito, ou seja, de um lado um personagem com uma vontade nítida e objetiva, de outro lado o antagonista também com uma (contra) vontade objetiva e clara.

Esses dois entram em choque (tese / antítese) numa variação quantitativa (evolução dinâmica), até um certo ponto em que há um salto de qualidade dessa relação. O salto de qualidade (ponto de virada), em geral, é o clímax dessa inter-relação de personagens. É claro que “personagem” pode ser um grupo de personagens, contrapondo-se também a um outro grupo de personagens ou, um personagem apenas contra um grupo, etc..

O genial é que este sistema permite um desdobramento rico em possibilidades. Independente do que assimilei do Boal/Lawson, via Hegel, eu consegui descobrir muitos caminhos a partir do meu dia-a-dia de intenso trabalho na dramaturgia (novelas).

Consegui desdobramentos incríveis a partir desse ponto de partida. Essa base é que norteou toda a nossa geração. Curiosamente, o próprio Boal não sistematizou, não escreveu a respeito, ficando tudo como um poderoso chip dentro de nós, onipresente, onisciente.

É claro que tudo isso – é importante dizer – é um processo de trabalho que leva à comunicação. Colabora para gerar o fenômeno de comunicação dramática, mas, obviamente, não leva um autor a escrever melhor. Nenhum sistema gera qualidade artística. É, isso sim, uma ferramenta poderosa que favorece a comunicação.

Valendo-se de um método que enriquece a comunicação, podemos aperfeiçoar o que se deseja expressar.

O livro de John Howard Lawson, citado:
Theory and technique of Playwriting

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