Sylvia Palma: – Você conhece a filmografia brasileira, tem algum filme que tenha chamado sua atenção, pelo roteiro ou direção?

Guillermo Arriaga:– Conheço “CIDADE DE DEUS”. Conheci Paulo Lins como escritor primeiro e depois vi a adaptação do Bráulio Mantovani, que é brilhante. Depois, conheci Kátia Lund e o Fernando [Meirelles].

Creio que há uma sensibilidade única e especial em “ESTAÇÃO CENTRAL” ( refere-se a “CENTRAL DO BRASIL”).

Encantou-me muito “MADAME SATÔ. A história de “MADAME SATÔ me pareceu muito interessante.

Se voltarmos a uns anos atrás, me agradou muito também “DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS”. Também “CARANDIRU”, e “PIXOTE”, do Hector Babenco. São momentos muito importantes do cinema brasileiro.

Me recordo, vi há muito anos, uma adaptação da novela de Clarice Lispector, a “HORA DA ESTRELA”, da Suzana Amaral.
Creio que o cinema brasileiro tem escritores e diretores muito importantes, fotógrafos muito importantes, como Walter Carvalho, por exemplo, um grande fotógrafo… Mas, cito também diretores como Andrucha Waddington, Cacá Diegues, Nelson Pereira.

 

Sylvia Palma: – Suas histórias envolvem várias histórias que se entrecruzam, como se houvesse um orquestrador, talvez um pouco irônico, regendo a vida de todos, através de um único fato desencadeado. Você acredita em um sentido maior para o qual o homem esteja destinado?

Guillermo Arriaga:– Não sou crente. Não acredito em Deus, ou algo assim. Mas, existe uma concatenação de eventos que transformam a realidade. Eu me lembro de que quando eu era criança, e a seleção mexicana de futebol estava perdendo, eu pensava que – eu estava na Alemanha – eu pensava que, se eu saísse e dissesse olá a uma pessoa, essa pessoa diria olá a outra, e mais outra, até chegar ao goleiro da seleção da Alemanha, e aí ele se distraía, para que o México pudesse fazer o gol. Isso eu pensava quando era criança. Sempre numa realidade que se encadeava a outra.

 

Sylvia Palma:: – O Brasil produz muita novela, que é um sucesso nacional. O México também. Você já pensou em escrever alguma?

Guillermo Arriaga:– Não tenho paciência para escrever novelas. Nunca.

 

Sylvia Palma:: – O que falta para os roteiristas hoje? Qual a dica que você daria aos roteiristas jovens, aos profissionais brasileiros?

Guillermo Arriaga:: – Um conselho para os que estão começando agora, que é muito fácil: escrevam e terminem o que escreverem! Parece muito tonto o que estou dizendo.

Mas, depois de anos dando aulas se descobre que os escritores se auto-castram. Têm medo de não serem grandes escritores. Preferem não escrever. Mesmo os colegas. Eles não avançam. Escritores têm que escrever e avançar. Escrever e avançar. Então, escrevam e terminem o que começaram!

 

Sylvia Palma: – Aqui no Brasil, os autores de novela geralmente têm a palavra final na produção áudio-visual. No cinema nem tanto. Recentemente, houve uma ruptura entre você e o diretor de cinema Alejandro Iñárritu, que dirigiu vários roteiros seus, como “AMORES BRUTOS”, “21 GRAMAS” e “BABEL”. Qual a importância dessa ruptura?

Guillermo Arriaga:– Foi importante essa ruptura para marcar a importância do escritor na obra. É importante debater a autoria da película, creio que a película pertence ao mundo de quem escreve. Muitas pessoas perguntam de quem é esse mundo que está sendo retratado na película. Do diretor? Do escritor?

Esse mundo que é retratado, sendo do escritor, a autoria da película é dele. Todas as teorias do roteiro são dele! Ocorreu que eu tinha uma trilogia e fui fazendo os roteiros dessa trilogia. Lançados os filmes, ouvi um dia o diretor dizer, numa entrevista, “… essa minha trilogia, etc e tal…”, como trilogia dele?

Sempre foi minha, é o meu universo, minhas histórias, meu mundo. Então, acho que se se quer procurar um autor, tem que procurar ver a quem pertence aquele mundo que se está falando. Esse é o autor legítimo.

 

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