Guillermo Arriaga, escritor nascido na Cidade do México, é também um premiado roteirista de cinema.

Seus filmes “AMORES BRUTOS” (Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro), “21 GRAMAS” E “BABEL”(indicado a vários Oscars, inclusive ao de roteiro), tiveram grande repercussão junto ao público e inúmeros elogios da crítica.

Com o filme “TRÊS ENTERROS”, Arriaga ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, em 2005. A literatura foi a primeira vocação de Guillermo Arriaga. Desde seu romance cômico-macabro de estréia, El Escuadrón Guillotina (1991), até o mais recente, O búfalo da noite (2002), o autor revela uma fascinação pelo tema da morte e pela aleatoriedade da violência.

Seu segundo romance, Um doce aroma de morte (2007), foi lançado no Brasil recentemente. No mês de julho, Arriaga esteve na FLIP, Feira Literária Internacional de Paraty, e, depois, no Rio de Janeiro, onde participou de uma noite de autógrafos especial para convidados.

Em entrevista exclusiva para a Associação dos Roteiristas, Guillermo Arriaga falou, entre outros temas, sobre o trabalho do autor de cinema e da questão da autoria numa obra áudio-visual.

Sylvia Palma:– Por que você não gosta da palavra roteirista?

Guillermo Arriaga:– Porque significa reduzir o trabalho de um escritor a só criar uma rota e não uma peça. Penso que fazemos uma peça que se interpreta e não apenas uma rota. Assim como guionista não significa somente guia.

Em espanhol, guionista (roteirista) também indica o sujeito que orienta o tráfico. Sou um escritor que escolhe modos diferentes de contar uma história, que pode ser um romance ou um filme. Nós, no México, já mudamos esse termo.

A Associação de Escritores Roteiristas mudou esse termo guionista para escritor de cinema. E o termo guion ( roteiro ) para obra de cinema.

Sylvia Palma: – Você é escritor há muitos anos e ficou mais famoso como roteirista. Isso tem sido bom para o escritor? A fama como roteirista modificou a sua maneira de escrever ou fazer literatura?

Guillermo Arriaga:– Se não fosse um escritor de romances nunca teria chegado ao cinema. Foi por causa das minhas estruturas literárias que pude chegar ao cinema. Amores Brutos é uma estrutura que personifica O Som E A Fúria de Willian Faulkner, por exemplo. Sempre saio da literatura para chegar ao cinema.

Mas o fato de ter ficado famoso como roteirista não teve nenhum impacto sobre a minha literatura. Não serviu para nada. Ao contrário, fico pensando que escrevo minha obra de cinema como se fossem romances.

Com rigor de linguagem, com recursos literários, com o mesmo empenho que escrevo literatura. É uma obra pessoal, com peças pessoais, que estão dentro de uma estrutura, num corpo geral de trabalho.

Sylvia Palma: – Qual a maior dificuldade que você encontra quando vai adaptar suas obras para o cinema?

Guillermo Arriaga:– Eu não digo que eu adapto ao cinema minha própria obra. Sempre peço que alguém me ajude, para não ser incestuoso. Mas, o que se tem que fazer é não trair o espírito do romance, não trair o espírito da obra.

Porque se traímos, não vale a pena adaptar. Toda a adaptação, um livro, por exemplo, quando sinto que não é cinematográfico, trato de inventar essa cinematografia. Mas, de modo dramático, e não de um modo meramente visual. Procuro esse outro caminho.

 

Sylvia Palma:: – Como você trabalha os diálogos?

Guillermo Arriaga:– Bem, creio que os diálogos têm que ter três funções: uma dessas funções é narrativa e dramática, se não tem a função narrativa e dramática não tem muito sentido.

Outra função é a apresentação dos personagens. E a terceira que se deve usar com muito cuidado e comedidamente são as cores, são os diálogos que dão cor.

Mas, fundamentalmente, as funções básicas dos diálogos são apresentar a história e mostrar a verdade dos personagens. São essas as duas funções básicas do diálogo e sobre isso me concentro.

 

Sylvia Palma: – Sobre as técnicas de roteiro apresentadas por estudiosos ou especialistas como Syd Field, por exemplo. Para muitos, essas técnicas são importantes de serem estudadas, mas, para outros, não devem servir de parâmetros para a criação do roteiro. O que você acha dessas técnicas, você as usa em seu trabalho?

Guillermo Arriaga:– Acho importante conhecê-las. Eu as conheci quando já escrevia. Então, acho importante conhecê-las, mas acho também que toda história merece uma forma distinta de ser contada.

Não se podem usar fórmulas. Não se pode dizer sempre que na página 30 tem que acontecer tal coisa. E na página 60, outra coisa. Não se pode… Porque cada história é diferente da outra.

Pode funcionar para um grupo de pessoas que carecem de estrutura mental. Não é meu caso. Eu não as uso porque não tenho esse problema.

Eu posso organizar as estruturas em minha cabeça sem nenhum problema. Eu escrevi “21 GRAMAS” na ordem em que se deu, em que se passou. Eu não me perco. Escrevi naquela ordem. Não perco nada. Entretanto, há pessoas que se perdem muito facilmente, para isso serve essa estrutura de Syd Field.

Li todos esses autores, mas não os uso. Eu creio que na maior parte do meu trabalho não foram necessárias as teorias de Syd Field e de todos esses autores. Mas eu sempre recomendo aos meus alunos, vocês estudem todas as teorias de escrituras. Vocês decidam, decidam suas ferramentas, mas são ferramentas que eu não uso.

 

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