Dentro de um roteiro clássico, quer seja cinematográfico ou teatral, sem dúvida alguma que o personagem é o sangue de qualquer ação dramática. Personagem deriva do grego “persona”, que significa “máscara”, cujos conflitos entre estes que irão dar o rumo à história. Ora, vivemos numa sociedade de seres racionais, repito aquele velho ditado “Em cada cabeça há uma sentença”.

Fôssemos seres de iguais formas de pensar, com um único objetivo de vida, talvez viveríamos numa sociedade como a das abelhas ou formigas que nascem, crescem e morrem apenas para trabalharem de forma mecânica. Mas não, somos seres humanos dotados de vontades, desejos, frustrações, anseios, objetivos, etc. e é justamente em meio ao caos social que surgem os conflitos e, daí, as inspirações para escrevermos nossas histórias.

Na composição de um personagem é necessário observar três aspectos sobre estes: o perfil físico, que irá definir o seu aspecto perante os olhos do público; o perfil social, que irá definir o ambiente em que o personagem vive e, o mais importante, o perfil psicológico. Mas, para compor o seu personagem, ou seja, para exibir a alma deste, o roteirista deverá estar atento a algo chamado “diálogo” ou seja, como o(s) seu(s) personagem(ns) fala(m) e pensa(m).

Numa história de época, é importante o roteirista pesquisar os costumes e as características de época, principalmente se a ação se situar em uma época bem remota, necessário será uma pesquisa pois os modismos mudam de geração para geração. A título de exemplo a palavra “gato” que hoje é um termo usado para definir um homem bonito, nos anos 60 dizia-se que tal indivíduo era um “pão”.

Mais além, está a palavra “charlatão” que hoje serve para designar um embusteiro, quando, a bem da verdade, em fins do século passado tratava-se do indivíduo que exercia a medicina através da prática, sem haver cursado uma faculdade.

De igual forma quando tencionamos situar o personagem em determinado ambiente. A título de exemplo, vejam duas situações em que determinados personagens podem dar uma notícia de falecimento: “Infelizmente, não teve jeito, precisamos ser fortes” ou “O cara se mandou, virou presunto e foi pro andar de cima”. Desnecessário dizer a qual classe social um e outro personagem pertencem.

Entretanto, não é impossível que determinado personagem venha a falar ou se portar diferentemente dos demais da sua classe, seja esta qual for, porém, para toda e qualquer circunstância deverá haver algo chamado “motivo” (aliás, esta é uma palavra que deve perseguir o roteirista em cada cena, em cada fala, em cada diálogo do seu roteiro).

Você seria capaz de imaginar um jovem punk a falar como Rui Barbosa? Algo totalmente fora de propósito mas, caso isto ocorra dentro de um filme ou roteiro, deverá haver um “porque” muito convincente, ainda que tal seja uma comédia.

Numa outra situação, também não é difícil imaginar um caipira, homem do povo, a ter a linguagem de um intelectual. O fato de o indivíduo ser pobre e viver na zona rural não significa que este deverá ser um pobre de vocabulário.

Não raro estamos tendo exemplo de indivíduos super dotados que deram o azar de não ter nascido numa família abastada para poder freqüentar escola, porém, não deixam de ser pessoas sábias.

Justamente por não ser um caso comum á realidade, se tal tipo for personagem de uma história, com toda certeza este deverá ter bastante influência sobre os demais na trama, não deverá jamais ser um mero coadjuvante. Cito como exemplo os clássicos de Guimarães Rosa.

No mais, o roteirista deverá estar sempre atento para um erro que muitas vezes se costumam cometer que é o personagem se “despersonalizar”. Isto é, vamos ver em determinada cena o protagonista, ou antagonista, falar em determinado estilo e, mais à frente, estará ele falando de modo ou estilo diverso ao que lhe deveria ser comum no decorrer da trama.

Deve o autor sempre ter em mente que o linguajar é o espelho de cada indivíduo. Portanto, ao escrever determinado roteiro, o ideal é que os diálogos venham a fluir normalmente. Quem melhor definiu isto foi domingos de Oliveira ao dizer que: “Quando estiver escrevendo, deixe que os seus personagens falarão nos teus ouvidos por você.”

 

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