Há muito que eu sinto vontade de escrever um ensaio sobre a imaginação. Nós, roteiristas, que a usamos tanto em nosso ofício nem ao menos paramos para pensar sobre ela, digamos que com um carinho merecido.

Já li alguma coisa a respeito do funcionamento da imaginação, sua dinâmica e conteúdo, por exemplo, mas o que sempre mais me chamou a atenção foi a taxativa conclusão de muitos segundo a qual a imaginação é menos importante que a razão, e que, portanto, não devia ser levada a sério, para todos os efeitos, segundo o meu entendimento, porque ela é uma coisa insensata, em conseqüência disso, incoerente, servindo, quando muito, a umas poucas gargalhadas resultado de uma boa tirada imaginativa de alguém igualmente imaginativo.

Longe de generalizar ou apontar autores desse pensamento pequeno, quero é apenas refletir sobre a imaginação, o seu poder inato no roteirista (é óbvio que ela é o seu principal atributo), a maneira pela qual concretizamos aquilo que imaginamos enfim.

Também não pretendo aqui enunciar uma tese sobre ela, apenas e tão somente o meu objetivo aqui é pensar como a imaginação constitui-se no maior tesouro para quem escreve histórias e roteiros.

Vejo a partir de uma idéia que surge na mente, feito uma fagulha de um fósforo recém-acendido. E então a imaginação cuida para estender o fogo para o cérebro e seus hemisférios, possibilitando articular as primeiras “visões” daquilo que, mais tarde, formará um roteiro de uma história.

A idéia solta assim sem a presença da imaginação apaga-se e volta ao estado de repouso de nossa mente incriativa, isto é, para o conteúdo mental submerso no inconsciente, de onde emerge sempre para que a imaginação possa vê-la, ou senti-la talvez. A imaginação é sentimento, afaga a idéia ou o conceito que fazemos de alguma coisa e, assim, busca sua realização na mente do agente da imaginação.

Quer dizer, enquanto o roteirista toma uma idéia e a converte numa estratégia imaginativa que resultará em porções de seu trabalho como roteirista e dramaturgo, outros fazem dela outras coisas, muitos não fazem nada, alguns outros talvez podem até achá-la estranha porque ela nada lhes diz ou significa.

Escrever, no entanto, aguça e desenvolve a imaginação. É um dos carros-chefes para perceber o quanto ela se realiza no mundo concreto. Vale perceber como a imaginação gosta de se manifestar. Geralmente, criamos algum conteúdo objetivo dentro dela e, de alguma forma, colocamo-lo projetado na tela do tempo e do espaço, conhecida também como uma dimensão tetradimensional.

O mundo, a depender da imaginação, pode ser de qualquer tamanho e arquitetura, pode ter qualquer habitante para viver ali, portanto, somente quando as asas da imaginação levantam vôo para pousar em algum lugar concreto é que ela se realiza, e, com ela, o poder do agente da imaginação.

Há um livro – “A Imaginação Criadora”, de Roy Eugene Davis – no qual uma técnica relativa à imaginação é abordada, segunda a qual podemos criar em imaginação toda a realidade que gostaríamos. Interessante como isso é verdadeiro em especial para o roteirista. Entretanto, contrariamente a isso, é comum ouvir coisas do tipo “aquilo que você colocou em seu roteiro é inverossímil, fantasioso, irreal, impossível, etc”.

Quer dizer, se minha matéria prima é a imaginação criadora, tudo posso além do ponto de vista crítico. Se uma coisa funciona para a história, não me importa se é uma bobagem, uma fantasia, uma quimera, um delírio, ou até mesmo um complexo da minha personalidade. O que vale para a história, como produção da minha imaginação, é ver o que esta produziu, e se produziu coisas “inverossímeis”, coisas talvez que ela própria, imaginação, possa desconfiar, deduzo que é em benefício das possibilidades que tenho para escolher.

Encontrei poucos que gostam de prestigiar a imaginação do ponto de vista objetivo. Quero dizer, tomando-a como uma qualidade da qual podemos tirar muito proveito, e não apenas nutrir por ela um senso de algo que não nos traz nenhuma outra vantagem senão uma faculdade inerente do ser humano para inventar coisas e, muitas vezes, divertir-se com elas.

Mas também é óbvio que a maioria dos escritores sabe de cor e salteado o poder que ela tem em si, vide o uso dela com primor e inteligência em tantas histórias em nossas novelas e filmes. Mas ainda não conseguimos elevar o status da imaginação ao grau que ela merece, sobretudo, pelo poder transformador que ela traz em si, em sua estrutura básica, e também vista de per si.

Nutrir respeito por ela pode ser o primeiro degrau na direção de conhecê-la melhor. Há pessoas que têm uma imaginação extraordinária, mas sentem medo daquilo que imaginam, portanto, estão longe de perceber que ela deve ser positivada e, daí sim, concretizada no mundo real.

Por outro lado, a razão não deve ser inimiga da imaginação. Ao contrário, ela deve servir como sustentação diretiva da imaginação. Como o é o Yin para o Yang (e vice-versa), ou o desejo para a ação. Imaginar pode implicar agir sob o curso de uma razão que bota nos trilhos um trem de primeira viagem.

Imaginar é não-raciocinar para fazer uma marca na realidade. Enquanto a razão pondera o que é melhor fazer, a imaginação coloca a imagem realizada de um desejo ou vontade. Ela é carta magna que se apresenta ao império da razão. Com ela não podemos chegar a um porto seguro, mas podemos iniciar a navegação rumo ao país da maravilhas. Assim falavam os roteiristas.

Conheço autores que gostam de ter em suas cabeças, antes de tudo, uma história e todos seus pormenores, usando somente o poder da imaginação como uma espécie de “primeiro tratamento”, para, então, em um segundo momento, sentarem-se à frente de uma tela de computador e soltarem o seu conteúdo. Isto é, soltam mesmo é o conteúdo da imaginação, daquilo que ficou numa fervura branda (ou atiçada) em sua mente, servindo-se da constante chama de sua capacidade de imaginar.

Um roteirista, geralmente, descreve imagens mais devido à capacidade que tem de ver a ação como um todo se desenrolando de sua imaginação. A montagem das cenas dá-se num desdobramento de imagens que vão se formando e se revelando de acordo com a coerência que a própria razão atesta ao longo desse processo mágico.

Talvez seja realmente uma mágica superpor quadros cujos conteúdos são gerados numa retro-alimentação entre o próprio ato de imaginar situações, comportamentos e falas de personagens com a realidade inconsciente da observação através da qual o roteirista mantém contato direto e objetivo para manifestar a forma das imagens.

Assim sendo, a imaginação pode ser determinada. Se desejo usá-la como fonte de tudo aquilo que pode ser manifestado no mundo real, seguramente poderei caminhar com o seu apoio ao longo de uma estrada desconhecida porém trazendo em potencial o desejo de se revelar. É assim que vejo a imaginação. Há sempre um bonde chamado idéia querendo trafegar por ela.

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